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Victor Barbuy

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Rafael Queiroz

Brasil Lero Lero

Eis o modelo civilizacional proposto pelo Brasil Paralelo, um país escravizado pela maçonaria.



Como já foi denunciado por Queiroz em seu artigo, o Brasil Paralelo pelo que podemos ver, de fato, progride para transformar a história norte-americana numa ideia platônica, uma categoria abstrata pela qual a história do Brasil será julgada e na qual deverá se encaixar. A americanização da história do Brasil e o liberalismo de fundo que rege o Brasil Paralelo ficam muito evidentes no episódio três.

O episódio três já começa com um “previously”, e, na sequência, o narrador afirma que é a parte mais importante da “saga”. Por que será? Simples, é a hora de liberalizar e americanizar o Brasil em definitivo. O episódio começa com a jura revolucionária na França, feita pelos Jacobinos. Contrapõem-se nele, a direita (reformistas bonzinhos) e a esquerda (jacobinos malvadões). Os jacobinos, movidos pelo igualitarismo e pela violência, eram inimigos da propriedade privada (o que não é bem por aí...), fonte da civilização e de todos os males. Daí cita-se Diderot, Voltaire e Jean Jacques Rousseau. Ao passo que os girondinos, reformistas, defendiam a liberdade.

Como oposto a essa ideia, claro, é apresentado o “conservador” Locke, de forma que aquilo contra o que a “nova direita americana”, que elegeu Trump, se revolta hoje (a historiografia Whig) passa a ser sacralizada aqui no Brasil. De um lado, a tradição britânica, em perfeita continuidade com a cristandade – segundo o Brasil Paralelo – pois o iluminismo escocês seria seu perfeito e mais lógico desdobramento; de outro, a revolução que quer destruir o ocidente, perfeita ruptura com o passado. Talvez por um lapso ou descuido, após falar que o rei Luís XVI ao convocar a assembleia dos Estados Gerais, viu-se impelido pelo radicalismo a findá-la, os sabichões do programa afirmam que os revolucionários se mudaram para o ginásio ao lado para fazer a jura revolucionária, e que lá estavam os girondinos (equivalentes aos Whigs) e os jacobinos juntos. Mas os girondinos não eram bonzinhos e em perfeita continuidade com a civilização? Não seriam eles meros reformistas como os Whigs ingleses? (Burke era um Whig, não custa lembrar. A ele voltaremos depois). Mistério.

Antes de desmascarar essa lorota, voltemos ao “iluminismo inglês”. É arqui-sabido que a nova direita coloca o iluminismo “moderado” como perfeitamente compatível com a catolicidade e com a tradição escolástica ortodoxa, veja Thomas Woods Jr; em seu livro “The Church and the Market” e em trechos de “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental”. Falácia, nada mais que uma falácia. Conforme nos mostra Christopher Ferrara em “Liberty, the God that failed: Policing the sacred and constructing the myths of the Secular State. From Locke to Obama”, a “síntese greco-católica” era a base de um raciocínio hegemônico no ocidente, que mesmo com a transição do paganismo para o cristianismo não se perde, apenas funda uma nova estrutura teológica. O hilemorfismo, a teleologia, o realismo e a ideia de valores morais universais que ditam toda a política e a ação humana, continuam presentes. Nas palavras de Ferrara (2012, p.16):
A lógica grega do sistema platônico-aristotélico desenvolveu pela primeira vez na história ocidental, o realismo filosófico, política e ética baseada numa visão de homem como criatura que possui uma alma imortal que habita um universo ordenado, na qual as coisas existem como um objetivo fixado determinado pela sua natureza (tradução livre).
Todos estes elementos estavam presentes nas grandes obras dos filósofos pagãos e que, desvencilhadas do paganismo ganharam nova força sem, entretanto, perder sua essência no cristianismo. Isto é, de Aristóteles a Santo Tomás, de Platão a Santo Agostinho, estará ali a ideia de um universo ordenado, de forma e matéria, acidente e essência, da substância, da realidade como objetivamente cognoscível, bem como a ideia de um summum bonum.

Entretanto, como pontua Richard Weaver em “As idéias têm consequências”, com o nominalismo, a coisa começou a desandar. Porém, não podemos tomar as coisas como se fossem assim tão repentinas, em história nada é repentino. As ideias que enfraqueciam o realismo já estavam em correntes gnósticas anteriormente durante boa parte do medievo, só que sempre limitadas e combatidas pela Igreja. A inquisição, ao perseguir e punir hereges limitava a expansão e legitimidade de tais ideias. Contudo, com a perda de poder e abrandamento da inquisição, bem como o crescimento do humanismo (que como mostrará o professor Orlando Fedeli no “Antropoteísmo” era a gnose no ar, na arte e na cultura), isto levará a influência nominalista, antes combatida e agora tolerada, para dentro dos seminários, onde em Erfurt, um certo monge agostiniano aprenderia as ideias que dividiriam a cristandade, e as pregaria na porta da igreja do castelo de Wittermberg num fatídico 31 de Outubro de 1517.

É um fator importante de se frisar, em que pese o cisma de 1054 ter tido terríveis consequências, ele nunca abalou as bases filosóficas da “síntese greco-católica”; com o protestantismo seria diferente. O nominalismo é a filosofia de base da reforma, onde nenhuma essência é cognoscível e, se ela não existe, é mero flatus vocis. Palavra vazia. Daí não se tornará possível conhecer a natureza das coisas, e, não tendo uma natureza intrínseca, serão puros fenômenos. Deus mesmo, não terá, assim, uma essência cognoscível, logo, o justo não é aquilo conforme a natureza divina, mas sim um ato da vontade arbitrária. Não podendo também aceder-se ao conhecimento de Deus pela razão, visto que as coisas não têm essência, então, cai-se no fideísmo.

A reforma ao criar através das Igrejas nacionais e dos reis que se põem no lugar do Papa, uma intelligentsia secular, leiga, descolada da cristandade, criou o ambiente perfeito para a difusão destas idéias. O curioso é que o Brasil Paralelo em momento nenhum menciona ou aprofunda mais do que de mera passagem a Reforma Protestante como fonte de mudanças profundas na mentalidade europeia e, sobretudo, de uma nova civilização. Então, eis que no Brasil Paralelo episódio três, vem se falar de uma cultura secularizada, como criada pelo iluminismo e antes inexistente. Não, não senhor! O iluminismo, de fato, idealizou uma sociedade laica e a desejou, mas não o foi sem causa e sem precedentes. Sua causa eficiente e sua precedência advém do cisma de Lutero, aí sim, encontramos a secularização. Ora, onde mais se não nas guerras de religião e nas perseguições entre protestantes nascerá o desejo por um Estado laico? E onde nascerá isso se não do outro lado do Atlântico?

E Locke?

Conforme mostrará Ferrara (2011, p.60), Locke, um nominalista, revolucionará a filosofia de duas formas:
Primeiro, ele declara que o homem tem o direito de propriedade “sobre sua própria pessoa”, uma novidade que rompe com a visão tradicional do homem como criação divina, que tem apenas uma custódia sobre o seu corpo, o qual ele não pode dispor dele conforme bem entende. Segundo, ele propõe o direito de propriedade como absoluto.
Mas mais do que isso, Locke é o pai do materialismo cientificista moderno. Todos os clamores de Dennet, Dawkins e outros cientificistas jaziam lá em Locke, em germe. Ora, se as essências não existem ou não são cognoscíveis, não faz sentido falar em “substância” com relação aos entes. E se as coisas não tem substância, ou elas não são cognoscíveis, e portanto, não faz sentido falar em substância para o homem, caindo-se no ceticismo e no materialismo. Seja pela inexistência, seja pelo agnosticismo, essa hipótese levará a consequências práticas idênticas.

Se o homem não tem uma essência, não é possível derivar daí o fim do próprio homem, e assim Locke aboliu a teleologia. A ideia da “síntese greco-católica” de que o homem “habita um universo ordenado cujas coisas têm um fim conforme a sua natureza, a sua essência”, é, assim, destruída. Isso se ligará na epistemologia da “tabula rasa” ao conceito moderno de liberdade, como sendo a pura ação descolada da lei divina e natural conforme sua concepção clássica. Afinal, se o justo e o bom são obras de puro voluntarismo divino, não derivando, portanto, da natureza divina, nem o bom, de acordo com cada ente deriva da finalidade que Deus deu à sua criatura na sua própria natureza, então não existe o fim último de cada coisa, fim este que legitimará ou não o ato livre.

Contudo um ponto letal do raciocínio Lockeano encontra no fideísmo protestante a sua fundamentação. Ora, se Deus não é racionalmente compreensível, cognoscível, então, só podemos crer nele por um ato de fé pura e simples. Contudo, com uma cultura que não é censurada pela inquisição e por uma ortodoxia como era a medieval, agora, as opiniões se secularizam, e Locke dará a marretada definitiva no hilemorfismo ao afirmar no seu “Ensaio sobre o entendimento humano”, de que o homem não é união de forma e matéria, e que o “self”, o “Eu”, seria apenas uma propriedade da matéria, do cérebro (Dawkins e Denett na área?), ora, não seria o ceticismo a “genetrix” do naturalismo?

Ei-la aí, a raiz dos movimentos progressistas modernos, como o abortista, por exemplo. Afinal, se “homem” é apenas um nome que damos a uma coleção de atributos perceptíveis; se “homem” não é uma substância, uma unidade de corpo e alma divinamente criada com uma natureza e fins fixados por Deus; se o homem é apenas matéria com uma qualidade que é “pensar”, então, quem poderá dizer que um feto é um ser humano no útero da sua mãe com direitos? Mesmo para os clérigos anglicanos, isso foi considerado escandaloso àquela época. Então, se Locke em continuidade com uma tradição reformada, só que secularizada, escandalizava os calvinistas, quão mais revolucionário não será ele em relação à catolicidade? Do fideísmo ao ceticismo de Hume e Locke há apenas um passo de distância. Todas essas ideias já estavam presentes no “cogito cartesiano”, é verdade, e como o próprio Olavo de Carvalho nos apresenta em “Visões de Descartes” (autor inquestionável para a turma do Brasil Paralelo), as ideias protestantes tinham muita influência sobre René Descartes, uma das razões dos pesadelos com o gênio mau, inclusive. Contudo, para ser mais ortodoxo quanto às fontes, cito o grande tomista brasileiro Perillo Gomes:
Tratando das suas origens, Pio IX é categórico no Syllabus, na infomação que nos dá: essas liberdades provem de teses fundamentais da revolução luterana e propagaram-se pelo mundo graças aos pseudo-filósofos da enciclopédia no século XVIII e triunfaram com a revolução francesa. Se desejar investigar sua origem mais remota chegar-se-á ao ponto inicial de todas as negações e de todas as revoltas: o grito de soberba de um anjo rebelado.
O iluminismo “moderado”, como visto em Perillo, é filho do protestantismo, e como colocará Ferrara, não passa de uma revolução tanto quanto o radical francês. O primeiro, radical nas ideias, pragmático na ação; pois se não há substâncias, não podemos dizer com precisão como as coisas são, melhor que elas mudem sozinhas na história, pois sem essências tudo é acidente e tudo muda. O segundo, radical nas ideias e nas ações, queria por uma exacerbação da racionalidade e pelo essencialismo, derrubar tudo e reerguer do zero.

É natural, portanto, que o processo de secularização leve aos conceitos básicos da soberania do indivíduo, em germe em Lutero e seu livre exame, que é a raiz do pensamento liberal, dado em Locke, e também presente em Hobbes, que embora absolutista pode ser chamado de ilustrado. Aliás, cito novamente o grande Perillo: “Os princípios liberais são: a soberania absoluta do indivíduo, a soberania absoluta da sociedade, a soberania nacional, a liberdade absoluta de imprensa e a liberdade absoluta de associação”, e eu complementaria, a completa liberdade de mercado, a liberdade absoluta de ideologias, conteúdo do pluralismo político, etc. Logo temos, política sem moral e sem virtude, economia sem moral e virtude, jornalismo sem moral e virtude, etc.

Ou seja, quando Morgerstern, a olavette processada por Caetano diz: “Esquerda é isso”, referindo-se aos jacobinos, temos que realmente nos perguntar se isso não se aplica ao girondinos também, afinal segundo o próprio Olavo de Carvalho, guru do processado, em seu artigo zombando do bobalhão liberal Rodrigo Constantino, diz: “Os girondinos, dos quais os liberais modernos se apresentam como herdeiros ideológicos, foram os primeiros a pregar a matança como panacéia revolucionária para os males da França[1].” Na prática, como eu já venho dizendo, todo conservador-liberal é um revolucionário superado pelo processo revolucionário.

Bonifácio, Revolução Americana Conservadora (?)

A expressão founding father utilizada nos Estados Unidos, é usada nesse episódio duas vezes, uma para se referir a José Bonifácio de Andrada e Silva e na outra a Visconde de Cairu. Ora, isso é ou não é já a americanização do debate historiográfico acerca das origens do Brasil? Categorias americanas bem restritas, passam a ser as medidas de comparação com a história brasileira! Como já citado, Christopher Ferrara irá mostrar, demolindo completamente a falácia Kirkeana de que a revolução americana fora uma revolução conservadora, o caráter claramente subversivo da revolução, marcada por manipulação da opinião pública através da imprensa da época (herdado da reforma protestante que se valeu do mesmo artifício, tal elemento foi utilizado para propagar factoides sobre a "violência" dos ingleses e sobre o "papismo" do rei George); não custa lembrar que “papista” como acusação e adjetivo pejorativo apareceu pela primeira vez nos escritos de Lutero como “Do Cativeiro babilônico da Igreja”, e os revolucionários americanos usaram também de denúncias hipócritas sobre a carga tributária supostamente opressiva da Coroa Britânica. A própria ideia de que a justiça de um imposto depende da representação, aparece pela primeira vez em Locke, mas não tem qualquer fundamento no pensamento filosófico tradicional. Soberania popular e voluntarismo?

Se a revolução americana é tão conservadora, por que ela era, antes de tudo, anti-Católica? Por que John Adams temia como ao demônio os direitos e a influência da Igreja em Quebec? Ao identificar o rei George III como um “papista”, eles queriam dizer o quê, se não a união entre o poder temporal e o poder eclesiástico previsto na doutrina dos dois gládios? O Brasil Paralelo argumenta que não há ligações entre a revolução americana e a francesa nos fundamentos e na prática, resta saber como separar James Maddison e Thomas Jefferson de suas influências que vem de Voltaire e dos enciclopedistas? Como negar que o braço direito de George Washington, Thomas Paine achou justa a remoção e assassinato de Luís XVI, mesmo sendo um “rei moderado”, pelo simples fato de ser um rei? Para Paine, a monarquia é inerentemente injusta e deve ser eliminada onde quer que ela exista. Como diferenciar essa afirmativa da mesma dos Jacobinos, que segundo William Doyle (1991, p.15) em “O Antigo Regime”, de que o objetivo dos revolucionários envolvia derrubar todas as monarquias do continente?
O "feudalismo" deveria ser destruído; e as terras da Igreja confiscadas. Em outras palavras, o Antigo Regime passava a ser encarado como um fenômeno não simplesmente francês. Podia ser encontrado onde quer que houvesse reis, nobres, privilégios, feudalismo e propriedades eclesiásticas. E isto representava a maior parte da Europa.
O próprio Rothbard, libertário, chama a atenção que a revolução americana provocou mais refugiados em proporção dos habitantes do que o Terror jacobino. Como pode isso não ter ligações com a doutrina francesa? Por que, como Chesterton notou, um dos grandes defensores da Revolução Americana, Edmund Burke, adota o evolucionismo e o ceticismo de Hume como defesa da Tradição e não o direito natural clássico, já que ele estaria em plena conformidade com a cristandade? Por que não se usou o direito natural clássico para coibir os abusos da doutrina de Robespierre baseada numa distorção do jusnaturalismo? Será porque Hume, outro nominalista, o guilhotinou?

O próprio George Washington havia dito, pouco antes da revolução que o rei George III não era um tirano, mais do que isso, que era “o melhor dos reis”. Aliás, a historiografia contemporânea mesmo nega a hipótese de tirania; se a Revolução Francesa e Americana foram alguma coisa, elas foram mera agitação ideológica com drásticas consequências, e o seu fruto foi semente da república imperial, liberal, laica da moral civil a qual Olavo, mentor dessa turma, denuncia no seu “Jardim das Aflições”, livro que hoje ele nega a validade das conclusões, mas que é seu magnum opus, e ao qual todos os americanistas louvam, paradoxalmente. A constituição americana, cujo Deus é o GADU da maçonaria, era razão de escândalo mesmo para calvinistas, que diziam ser ela: "the godless constitution". Foi a National Reform Association, inclusive, que tentou em vão emendar a Constituição com uma menção explícita a Deus e a Jesus Cristo.

Acresça-se a isso, os sacrifícios rituais de tendência gnóstica nos “liberty poles” e “liberty trees” ocorridos no período da revolução americana, onde inimigos da revolução eram forçados a jurar lealdade a mesma, sob a pena de serem mortos ali em sacrifício a deusa Libertas. É essa sociedade gnóstica e violenta que é modelo? É essa sociedade que privatiza a fé que é o parâmetro para um país que nasceu pela fé Católica, pelo altar e pelo trono? Ora, é novamente Perillo quem vai nos explicar o que é esse modelo liberal-americano em face da tradição católica, vejamos com ele se ela é conservadora:
O liberalismo radical (NdT: jacobinismo) é ostensivamente ateu, anticlerical, demagógico e revolucionário. Como expressão política proclama a supremacia do estado sobre o indivíduo e as corporações de qualquer natureza. O liberalismo moderado (NdT: ou conservador) tenta uma fórmula de conciliação entre os princípios do liberalismo radical e a coexistência do sobrenatural, determinando na vida do homem um dualismo fundamental: de um lado as atividades da fé e de outro as cognoscitivas, cívicas, utilitárias, etc. A razão, portanto, nada tem a ver com a revelação; os dois planos da vida, o natural e o sobrenatural são independentes entre si, como dois departamentos estanques. (NdT = Nota do Transcritor)
Prossegue Perillo:
Sua fórmula política é a igualdade entre os poderes espirituais e temporais, essa pretensa igualdade em si mesmo já é uma heresia. Não é possível nivelar a vida religiosa, que interessa a vida futura do homem - sua vida verdadeira - àquela a que estão confiados apenas os seus interesses imediatos, tangíveis, transitórios. Além disso, essa declaração de igualdade é puramente teórica, não corresponde à realidade, porque não podendo existir dois poderes autônomos, absolutos, interessando ao mesmo indivíduo, daí resulta que na prática o Estado, sob alegação de que lhe cabe a função de mantenedor da ordem, impõe a Igreja as soluções que bem lhe parecem. Daí os conflitos que se verificam entre a Igreja e as liberdades modernas.
Como podemos ver, a historiografia Whig do Brasil Paralelo simplesmente segue a lógica Lockeana, e demole a Cidade de Deus da qual falava Santo Agostinho. Como podem homens que querem recuperar a história do Brasil, um país mercantilista, miscigenado e católico, o fazerem sobre bases liberais, segregacionistas e protestantes? Não podem, não tem como, e o resultado é isto... Propaganda. O Brasil Paralelo não passa de pura empulhação ideológica no que se refere a fazer um recorte de fundo para narrar a história do Brasil. Como eu disse de começo em artigo prévio, o programa tem o mérito de fazer uma história patriota, o que para um público leigo é aceitável. E eu acredito na História como magistral vitae, assim como Cícero. Mas não é necessário distorcer a história, inventá-la, mentir e omitir.
Síntese escolástico-liberal e católico-maçônica.

Qualquer conciliação entre a síntese católico-maçônica de Bonifácio e escolástico-iluminista como a de Cairu (se é que tal junção existe), mencionada aos 37:47 do episódio, não passa de heresia, as velhas heresias nominalistas ressuscitadas pela equipe do Brasil Paralelo. As mesmas heresias que o Papa São Pio X irá condenar sob a alcunha de modernismo; afinal, o que é o americanismo e o catolicismo liberal se não modernismo? Os católicos que não se enganem, nada há de católico e “conservador” no Brasil Paralelo. Só é possível adotar um escolasticismo liberal caindo em heresia, então católico, escolha: a cidade de Deus ou a cidade dos homens?

Aos homens do Brasil Paralelo, pergunto-vos: (pois sei que muitos ali se dizem católicos) quem sois vós? católicos ou hereges? a Igreja ou o liberalismo? ESCOLHAM!


#Arthur Rizzi
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Introdução

São Dominguito de Val, jovem católico vítima de um assassinato ritual tal qual São Simão de Trento.

Recentemente uma polêmica surgiu no que tange à questão do assassinato ritual de São Simão de Trento, uma criança cujos pais eram católicos de Trento, Itália, e que, no século 15, foi sacrificado num ritual de magia judaica. O caso virou um processo onde 17 judeus confessaram participação na tortura e morte de Simão. O menino foi beatificado e colocado no martirológio romano, tendo sido citado por diversos papas como vitima do ódio judaico contra a fé católica. Todavia não faltam vozes, sejam eclesiásticas sejam não eclesiásticas, que questionam o fato. Nosso objetivo aqui é esclarecer este problema.

Magia judaica no fim do medievo

Até um tempo atrás havia pouca atenção ao estudo da magia e das várias artes ligadas à sua prática no judaísmo. Essa falta de atenção foi devida à crença errônea, difundida até os últimos tempos entre os hebraístas e os estudiosos do mundo judeu em geral, que os judeus haviam mostrado muito pouco interesse pela magia. Os autores do século XIX, fortemente influenciados pelo racionalismo dominante no pensamento científico naquele século, tentaram sublinhar os aspectos mais racionalistas da cultura judaica. Sobre o judaísmo hispânico, por exemplo, a pesquisa sobre a cultura hebraica se concentrou preferencialmente na produção histórica, filosófica e literária em geral, negligenciando campos que, como medicina, astrologia ou magia aprendida. Hoje não há mais dúvida de que o recurso à magia era habitual no judaísmo.

Isso é revelado em alguns dos estudos mais recentes sobre magia judaica. Entre tais estudos temos aqueles que merecem ser destacados como os de Ron Barkai em “Science Magic e Mythology in the Middle ages” e “L'us dels Salms na màgia jueva de l'Edat Mitjana e Renaixement: o llibre Shimush Tehil.lim em La Càbala”, etc.

É verdade que o Talmud, um livro caracterizado em geral por um racionalismo pronunciado, condena de maneira estrita a magia e a feitiçaria, que considera mera prática de charlatanismo e relaciona a magia das mulheres com vícios sexuais (Sanh.67a). A condenação da magia pela Torá como um culto idólatra aos deuses pagãos e pelo Talmud como prática própria dos amorreus, constituiu um axioma que foi transmitido entre os judeus, de geração em geração, até tempos recentes e, durante séculos, especialistas judeus em matéria de jurisprudência religiosa (halaká) rejeitaram fortemente as práticas que eles consideravam suspeitas de idolatria; os argumentos de justificação são de natureza muito diferente: pelo uso das Sagradas Escrituras com um propósito profano; pelo uso de feitiços utilizados profusamente no ritual da magia pagã e que, como tal, a Torá reprovou expressamente; ou pelo uso de amuletos, a que foram conferidos poderes sobrenaturais. Mas embora a teoria em relação à magia fosse clara e rigorosa, a realidade era muito mais difusa. Assim, nenhum dos mestres do Talmud negou o poder da magia e, mesmo que sua prática fosse proibida, alguns dos talmudistas lutavam contra a magia negra com o que poderia ser chamado de magia branca. Mais tarde, já nos tempos medievais, a atitude dos rabinos espanhóis havia se tornado, em geral, muito permissiva em relação à magia, com alguns deles chegando mesmo a praticá-la pessoalmente.

Mesmo algumas cerimônias religiosas, ainda hoje em uso entre os judeus, tem uma indubitável origem mágica e supersticiosa: eles são, entre outros, o conhecido como tashlij, consistindo em agitar a roupa nas águas de um rio ou jogando migalhas no primeiro dia da Rosh ha-Shaná (Ano Novo judaico), simbolizando que os pecados cometidos durante o ano que terminou foram jogados na água para serem levados pela corrente (nas suas origens é, com toda a probabilidade, um rito propiciatório dos espíritos das águas); ou aquele que tem lugar em Hoshana rabba (a grande súplica), isto é, o sétimo dia da festa de Sukkot (Festa dos Tabernáculos), quando o solo é atingido com um monte de cinco ramos de salgueiro e que parece estar vinculado em suas origens para as invocações para a chuva.

Muitos se fiam no rechaço de Maimônides – um filósofo judeu do medievo – à magia mas, mesmo que tenhamos que frisar a oposição radical de Maimônides, outros estudiosos judeus adotaram posições menos beligerantes em relação à magia. É o caso do proeminente jurista catalão Shelomoh ben Adret (1235-1310), como é deduzido da correspondência epistolar que manteve com o judeu provençal En Bonet Abram, e isso é um bom reflexo da controvérsia em torno do trabalho de Maimônides que estava envolvido no judaísmo sefardita desde o início do século XIII. Na correspondência Bonet Abram parte da autoridade de Maimônides e ataca todas as artes e práticas relacionadas à magia; porém Adret deixa abrir a porta ao seu uso para fins terapêuticos.

Assim existe uma confusão dentro do judaísmo em torno da legalidade ou da ilegalidade de recorrer a práticas mágicas é revelada no trabalho de Yishaq ben Moseh ha-Levi (? - 1414), mais conhecido como Profiat Durán, que foi astrólogo do rei João I de Aragão. Este autor critica o costume de judeus sábios para recorrer a fontes estranhas ao judaísmo, às quais ele atribui calamidades sofridas pelas comunidades hebraicas da Alemanha, França e Espanha; ele insiste na necessidade de retornar à literatura sagrada judaica e, em particular, refere-se ao livro dos Salmos afirmando que foi a devoção dos judeus de Aragão a este livro o que os salvou dos infortúnios sofridos por seus companheiros de fé em outros territórios hispânicos no ano de 1391. Mas o mais significativo é que sua autêntica paixão pelo livro dos Salmos também leva a louvar o livro chamado Séfer Shimush Tehil Lim (Livro do uso cirúrgico dos Salmos), provavelmente o tratado mágico judaico mais importante de toda a Idade Média e do Renascimento e dos quais são conservados trinta manuscritos com diferentes versões. A controvérsia em torno da admissibilidade ou inadmissibilidade da magia no judaísmo tornou-se mais agudo nos últimos dias da Idade Média e no primeiro Renascimento, e expressado no confronto entre a escola racionalista Maimônides e os movimentos cabalistas e neoplatônicos do misticismo judaico.

Feitiçaria judaica

A relação entre judeus com magia e feitiçaria e, em menor grau, com feitiçaria, é confirmada pela presença de vários judeus convertidos nos processos inquisitórios de feitiçaria no final dos séculos 15 e 16, bem como quanto ao que é muitas vezes referido em manuscritos hebraicos de experimentos e um e o outro consistem na descrição da estrutura do cosmos e das forças que atuam lá: em suma, consistem na Cabala prática que levou a uma floração autêntica da magia judaica medieval e contribuiu decididamente para estender a reputação dos judeus como mágicos e feiticeiros. Uma boa visão sobre este quadro de práticas cabalísticas pode ser encontrada nos livros de Perle Besserman.

Ao longo da Idade Média, as comunidades judaicas distribuídas por toda a Europa ocidental e central tinham vários tratados mágicos, alguns dos quais eram de tempos antigos, enquanto outros eram da época medieval. Entre os escritos primitivos, o Séfer ha-razim (Livro dos segredos) tornou-se muito famoso que é considerado talmúdico, e Séfer Raziel ha-malakh (Livro do anjo Raziel), um conjunto de escritos místicos, cosmológicos e mágicos. Eles foram integrados no século XIII em um todo unitário pelo místico alemão Eleazar ben Yehudah de Worms. Esses livros baseiam a ação mágica no conhecimento da estrutura do cosmos, conhecendo este, juntamente com as ciências mais próximas da cosmologia (matemática, geometria, astronomia e astrologia), permitiria ao mago fazer as forças superiores agirem; eles se encaixam, portanto, no que é conhecido como "literatura mágica erudita”. Nestes meios nasceu a tese de que o rei bíblico Salomão foi o primeiro mágico. Mais tarde, desenvolveram uma lenda sobre esse rei, cuja enorme biblioteca de livros mágicos só teria sobrevivido dois textos de magia: o testamento e a clavícula; O resto teria morrido em um incêndio.

A literatura apócrifa "Salomônica" ou "pseudo salomônica" proliferou nos tempos medievais, sendo perseguida pelos tribunais inquisitoriais. Em Toledo, na Espanha, se deu uma forte popularização de certos livros cheios de sinais misteriosos, personagens e orações, como a Clavícula de Salomão e outras obras de medicina supersticiosa e necromancia.

A partir destas crenças é que podemos analisar o impacto dos feitiços na cultura popular judaica de então; o feitiço de gotículas, por exemplo, é devassado no trabalho de Sebastián Cirac. Outro procedimento de feitiçaria também usado com frequência era conhecida como "medição da fita", que consistia em usar uma fita para tirar várias medidas do corpo da pessoa, medidas destinadas a curar; o resultado dessas medições determinaria o mal sofrido, que seria remediado pela recitação de vários feitiços e orações. A cicatrização de doenças oculares foi feita aplicando lama feita para tirada do túmulo de um homem justo; Esta é uma prática relacionada à crença, muito difundida na época medieval, da faculdade que possuía os túmulos de homens santos e justos para curar doenças com simples contato. Não há dúvida de que o feiticeiro tivesse algum sucesso na cura de afecções menores, para as quais teria remédios baseados em ervas medicinais conhecidas pela sabedoria popular, o que acabava dando prestígio aos magos. Havia feitiços para que a pessoa amada retornasse em breve se ela estivesse ausente. Os procedimentos utilizados foram muito simples e, muitas vezes, misturaram o sagrado e o profano; entre os procedimentos usados para alcançar o amor de uma mulher, era muito difundido que usasse o sangue de uma galinha ou de um pombo, de penas de preferência branco, para escrever com ela o nome do homem que queria ser amado; essas letras deviam ser apagadas com água pura que, em seguida, seria dado a beber à mulher. Outras vezes, tratava-se de propiciar uma boa viagem, para a qual a proteção foi solicitada contra animais selvagens e bandidos. Outra questão de não menos interesse é aquilo que se refere aos materiais utilizados nas práticas mágicas e na feitiçaria. No que diz respeito às matérias-primas utilizadas, elas devem ser sempre puras. A água, muito usada na magia, deve necessariamente ser tratada, recém-colhida na fonte ou no rio, e depositada em novos recipientes que não foram utilizados antes. Também era usual o uso em preparações mágicas de óleo e mel, produtos considerados puros por sua aparência límpida e transparente; quando a terra é usada, deve ser terra virgem. Ocorria o contrário quando o ritual mágico se destinava a causar danos a alguém: nesses casos, era necessário usar água turva ou terra apanhada nas estradas. As pedras preciosas também receberam poder mágico e habilidade protetora contra vários perigos, que para alguns autores poderia estar relacionado ao peitoral adornado com pedras preciosas usadas pelo Sumo Sacerdote no Templo de Jerusalém (Êxodo, XXVIII, 17-20); assim se considerava a pedra do rubi ligada a figura de Ruben; tomava-se a mesma como protetora contra o aborto e a esterilidade das mulheres; A esmeralda seria a pedra de Levi, dando-lhe a capacidade de conceder sabedoria a um homem e, sob a forma de pó, rejuvenescer um velho; O topázio seria a pedra de Simeão, considerada adequada para curar doenças, em particular oculares; a ametista seria a pedra de Gad, a qual a capacidade conferida era a proteção em batalhas, bem como na frente de demônios; e o ônix seria a pedra de José, a quem era dado o poder de conceder sucesso na sociedade.

Todas estas práticas, generalizadas no fim da idade média entre os judeus e, espalhadas entre os cristãos através do contato com comunidades judias, ajudou a propagar a idéia do judeu como mago e feiticeiro.

Crime ritual?

Justamente quando a magia judia se estende pela Europa do fim do medievo é que começam a aparecer, com mais frequência, os relatos de crime de assassinato ritual. Tais relatos envolviam de roubos de hóstias consagradas – com o crescimento da devoção a eucaristia, sobretudo no século 13, tornaram-se mais comuns os ataques a sacrários e o furto de hóstias – a blasfêmias a Jesus Cristo e até rapto de crianças para a aquisição de sangue humano a fim de realizar encantamentos.

É comum entre certos historiógrafos o recurso a interpretar tais acusações aos judeus como uma forma da Igreja confiscar os seus bens, por puro interesse material, e como um modo de reis e nobres se valerem do “perigo judaico” como bode expiatório para problemas políticos e econômicos. Primeiro é preciso que se diga que tal interpretação é viciada de marxismo, pois tende a entender fenômenos religiosos exclusivamente sob a ótica econômica.

Por outro lado é uma inverdade que a Igreja agisse movida, sobremaneira, por interesses materiais. O papa Alexandre IV (1254-1261) proibiu a inquisição de julgar qualquer caso de feitiçaria, reservando à mesma somente os casos de heresia. Para a Igreja o combate aos heréticos era mais importante que o combate aos feiticeiros e magos o que prova que o braço inquisitorial deveria, por determinação papal, dedicar-se mais a expurgar más doutrinas que, simplesmente, confiscar bens de feiticeiros e se ocupar de práticas mágicas . Por outro lado o poder repressor da inquisição não seguia um afã de condenar quem quer que fosse para aumentar as rendas da Igreja. A retomada do direito romano no século 13 e o uso do Corpus Iuris Civilis, pelos inquisidores, exigia a produção de provas e o exame e reexame dos fatos. Os inquisidores tinham de seguir um padrão legal rígido. Com o passar do tempo a inquisição, cada vez mais, se dirigiu para reduzir o recurso às torturas a fim de conseguir o testemunho e a confissão. O uso de médicos nas sessões de tortura para assegurar que elas não passassem dos devidos limites exigidos para não comprometer seja a vida do sujeito, seja a lisura de sua confissão, retrata bem isso. Ainda é necessário deixar claro que a alegação da historiografia de tendência progressista-iluminista, carece de seriedade científica dado que costuma usar a assertiva de que “confissão sob tortura não constitui prova válida” como se a prova inquisitorial se baseasse somente nisso; em outro ponto é preciso dizer que tal assertiva se embasa num anacronismo sutil: não se pode julgar o procedimento inquisitorial à luz de supostos avanços jurídicos ocorridos nos séculos posteriores, como se os inquisidores fossem dotados de maquiavelismo visceral, a aplicar uma justiça infundada. O que eles tinham a mão de melhor e mais avançado em termos de direito – o corpo de leis do direito romano - é que foi usado nos julgamentos inquisitoriais. Cabe deixar evidenciado também que a Igreja sempre concedia a remissão da pena temporal caso o suspeito fosse tido como culpado mas se arrependesse, o que demonstra que o objetivo central não era obter bens a qualquer custo. Outrossim os inquisidores, durante o século 14 e início do 15, relutaram bastante em acreditar nos relatos de bruxaria e só o fizeram sob a pressão dos acontecimentos que se avolumaram.

No que tange aos reis, sua relação com os judeus era ambígua. Ora necessitavam deles como prestamistas e comerciantes, ora se tornavam devedores dos agiotas judeus o que motivava expurgos e expulsões. No caso da Península Ibérica, envolta na luta contra os muçulmanos durante a reconquista, nem sempre foi possível hostilizar abertamente os judeus dada a dependência financeira deles. Na Ibéria o sarraceno era o objeto principal do ódio e não tanto o judeu.

Voltando a questão da feitiçaria, no século 14 a visão da Igreja sobre os feiticeiros vai mudar. No século 14 os “maleficia” - feitiços – começaram a se ligar a cultos mais amplos, o que envolvia, inclusive, pactos com o diabo. Entre 1317 e 1319 o Papa João XXII descobre uma conjura contra sua vida, perpetrada por um médico, um barbeiro e um frade que estavam envolvidos em feitiçaria misturada à invocação de demônios. Com base nisso o Papa decreta a bula Super Illius Specula onde autoriza a inquisição processar feiticeiros. Recorde-se que, no século 14 houve um “boom” de cultos astrológicos ligados a invocação de entes demoníacos e que se estruturavam nos chamados Sabás das bruxas. Tais Sabás eram um misto de toda uma onda de misticismo, feitiçaria, adivinhação astrológica, sobrevivências de cultos pagãos – que se ligavam ao culto, por exemplo, a deusas romanas como Diana – que vinha se desenvolvendo no fim do século 14 e início do 15, onde a feitiçaria, de cunho mais individual e privado, dava lugar a cultos coletivos de cunho satânico. Este novo contexto estava ligado primeiro a sobrevivências de práticas e doutrinas cátaras. Como os cátaros admitiam – no seu dualismo – que esta mundo era obra do Diabo, certos sobreviventes da heresia cátara passaram a crer que, sendo o Diabo um criador, ele deveria também receber um certo culto. Os cátaros – como relatam escritores do século 12 – consideravam necessário praticar ritos de promiscuidade sagrada a fim de se libertar das leis deste mundo. Daí, provavelmente, evoluíram as idéias e práticas que deram origem aos ditos “Sabás”.

Na Península Ibérica, a posição sobre os judeus evoluía, na mesma época – século 14 - para uma imagem cada vez mais negativa. Sobre isso ressaltemos o fato trazido à baila por Gutierre Díez de Games (1378-1450), em sua Crônica de Don Pero Niño, Conde de Buelna, trabalho mais conhecido como El Victorial, onde ele ataca o tesoureiro do rei Pedro I de Castela, o judeu Semuel Levi, a quem ele acusa de feiticeiro e adivinho, além de ter iniciado o monarca nessas práticas astrológicas: "Ele tinha como conselheiro um judeu privado que se chamava Samuel Levi; este judeu ensinou-o a querer conhecer as coisas que estão por vir, por feitiços e arte de estrelas”. Ao mesmo tempo não parece casual que, pelo menos desde o início do século 15, as reuniões das bruxas começarão a ser denominadas - como as das sinagoga – Sabás, reuniões noturnas de bruxas com o diabo na forma de uma cabra. O primeiro autor que parece ter aplicado o termo Sabá às bruxas foi um teólogo da Universidade de Poitiers, Pedro Mamoris. O termo também é usado pelo padre Jean Vincent em seu Liber adversus magicas artes, publicado em 1475. Há várias teorias sobre a origem do termo “Sabá”; uma delas aponta para a grande probabilidade de provir da palavra hebraica shabbath (repouso), com o que se chama dia sagrado para a religião judaica.

Que tais rituais sabáticos demoníacos existiam era um fato. Vários historiadores atestam a sobrevivência de cultos pagãos de adoração a natureza que não tinham sido eliminados pela cristianização da Europa. Tais ritos sabáticos evidentemente não tinham origem exclusivamente judaica: eram um misto de paganismo subterrâneo, gnose cátara, cabala judia, etc. Isso tudo tomava corpo em uma época de crise social e moral, onde o papado estava sob os golpes dos reis que se tornavam, pouco a pouco, absolutistas, onde a peste negra fazia milhões de vítimas, onde revoltas camponesas destroçavam a malha social feudal, etc. Lembremos que desde o século 13, a cristandade está na defensiva em termos internos: vários movimentos heréticos haviam tencionado questionar a ordem feudo-católica, como os valdenses e cátaros. O século 14-15 traz a revivescência de antigos cultos num clima de fermentação social e religiosa enorme. Sobre isso há um relato marcante dos idos de 1387-1388 ocorrido na Lombardia. Um pequeno grupo capturado por heresia pela inquisição relatou a prática do Sabá nos seguintes termos: renúncia formal a fé católica durante os ritos, adoração a Satã, ingestão de bebidas repugnantes, orgias, etc. Tais relatos se tornaram cada vez mais frequentes e seguiam um mesmo padrão. A alegação de certa historiografia crítica da inquisição sobre isso é simplesmente ridícula. Tal historiografia entende que tudo era uma questão de afirmar o poder da Igreja. O problema aí é que as perguntas que deviam ser feitas pelo inquisidor eram padronizadas rigidamente. A criatividade do inquisidor para fazer questionamentos que pudessem levar a respostas padronizadas era quase nenhuma. Em segundo lugar a questão que se coloca é: já que este era o grande intento da Igreja – usar o poder inquisitorial para criminalizar usando a alegação de feitiçaria associada a satanismo – por que desde o século 13 isto não foi o procedimento padrão? Por que ele só passa a ser no século 14-15? Ora, só se acontecimentos novos estivessem a se dar é que podemos esclarecer satisfatoriamente esta mudança da ação da Igreja em face à feitiçaria, que ia deixando de ser privada para virar um culto coletivo. Outra alegação insustentável é a de que os “surtos de bruxaria” como fenômeno de crença com uma função social, ou seja, com a função de ser uma válvula de escape em época de inquietação política e social profunda. O problema é que nem todo período de inquietação gera “surtos de bruxaria” como fato de crença. Aliás a única época que atesta um surto de crença generalizada em bruxaria foi a da Europa do fim do medievo pois os surtos existentes na África são locais e não gerais como foram no século 15 europeu e nem envolveram toda uma cultura como ocorreu no ocidente cristão, surto aliás que permaneceu vivo até o século 17!

A alegação de que neuroses ou esquizofrenias coletivas seriam responsáveis pelos surtos, simplesmente não esclarecem um fenômeno tão duradouro e tão impactante, dado que toda a elite – juízes, intelectuais, escritores, clérigos, reis – da época levou a sério a onda de bruxaria, o que mostra sua incorporação ao sistema de pensamento entre 1400-1700.

Justamente neste contexto é que se esclarece o assassinato ritual do menino Simão. Em 1438 um caso de assassinato ritual veio a tona com o inquérito de Pierre Vallin, no sul da França. Vallin confessara a participação no sacrifício da própria filha quando ainda bebê. Admitira ter participado de Sabás onde outras crianças também foram sacrificadas. O inquérito envolveu, inclusive, a suspeita de participação de gente o alto clero, de juízes e de homens ricos da região. Os inquisidores insistiram com Vallin para que entregasse os envolvidos. Tudo isto prova que não eram apenas judeus os envolvidos em coisas deste tipo. Heréticos também estavam. Mas todo este contexto só se esclarece a partir da síntese entre as sobrevivências da gnose junto com a especulação cabalística judaica. A cabala, em suma, nega ao Deus criador deste mundo o estatuto de ser supremo. O esoterismo cabalista considera que este Deus Criador é apenas uma manifestação do imanifesto, que é o Ein Sof ou Ain Sof – o Deus oculto. Para obter o conhecimento do Ein Sof é preciso quebrar a lei do demiurgo – o Deus Criador – que são, basicamente os dez mandamentos. Quebrando-o o iniciado pode elevar-se para além deste mundo material libertando-se dele.

A cabala envolvia, inclusive a invocação de anjos. É muito interessante apresentar o estudo documentado de Gonzalo Rubio sobre Angelologia na Literatura Rabínica. Ele mostra que alguns dos anjos a quem os feiticeiros e feiticeiros judeus apelaram eram parte da tradição hebraica, como os quatro arcanjos ou "anjos mais velhos": Gabriel ("Homem de Deus "ou" Força de Deus ", é o príncipe da força), Michael (é o príncipe da água, cujo A missão consiste na proteção de Israel), Raphael ("Medicina ou cura de Deus", nomeando qual era a sua função) e Uriel ("Fogo de Deus" ou "Luz de Deus" através dele recebe homens, seu conhecimento). Outros "anjos menores" também vieram da tradição hebraica, como Raziel, Yurkemi ("príncipe saudade"), Ridya ("príncipe da chuva"), Rahab ("Príncipe do mar"), Layla ("príncipe da noite" e de "concepção"), Sandalfón ("irmão associado", alcançou grande relevância na literatura cabalística), ou Duma ("anjo da morte") . Outros anjos tinham sua origem em literatura mística e cabalística, como Metatron ("príncipe do mundo"). E, em outros casos, finalmente, seu nome foi derivado do pedido específico que foi formulado, que tem muito a ver com um procedimento usual na literatura mágica judaica que se baseia na crença de que toda realidade terrena é atribuída a um anjo no céu: eles são, entre outros, Derashiel (derisha Demanda), Baqshiel (baqasha = petição), Berakhiel (berakha = Bênção) ou Samahiel (simhá = felicidade). Também se recorreu a muitas vezes para anjos de paz, de raiva, de beneficência, de sonhos, e anjos maus, destruidores (mal'ake ha-mashit). Evidentemente que, desde um ponto de vista inquisitorial a invocação, sobretudo dos anjos da literatura mística e, destacadamente de Metraton, era invocação a demônios, ou seja, a anjos decaídos. É aqui, na cabala, que encontramos a chave explicativa para a expansão dos ritos diabólicos do século 14-15 que envolviam desde adoração satânica a sacrifícios rituais até cultos pagãos a natureza e gnose cátara. Claro que isso não envolvia apenas a atuação de grupos judaicos mas, também, de sociedades ocultistas formadas por heréticos. Todavia o fundo comum destas práticas era o cabalismo, doutrina de base judaica.

São Simão e a tese de Toaff

Sobre o livro de Toaff, há que ficar claro o seguinte:

(1) Os testemunhos sobre as "páscoas de sangue" são inumeráveis no medievo. Documentos e depoimentos que distam séculos, numa época em que não havia imprensa, contam a mesmíssima história. É simplesmente impossível que tantos documentos e depoimentos, de origem diversa no tempo e espaço, tenham sido "inventados". Qualquer um, com alguma noção de inquérito, entende isso.

(2) No fim do medievo a magia era fortíssima em círculos judaicos, até na esfera das cerimônias sinagogais e caseiras, como mostramos Na esfera discreta/esotérica o cabalismo propugnava práticas avessas a Torá - dado que o cabalismo considera o Deus da criação como o demiurgo cuja lei todo iniciado deve esforçar-se para se libertar e, assim, poder conhecer o Ain Sof, verdadeiro deus segundo a Cabala. O assassinato ritual era uma forma de judeus cabalistas buscarem isso.

(3) A pesquisa de Toaff se funda na metodologia de Carlo Ginzburg, um historiador de ascendência judia, cabe recordar. Ginzburg é um historiador da micro-história. Especialista em crenças religiosas populares do fim do medievo e início da era moderna ele constituiu um método de análise em que busca, nos textos e práticas da época, um substrato de religiões e cultos subterrâneos que não encontravam expressão documentada. Por conta do braço inquisitorial e da cultura majoritariamente católica em que estavam inseridos, tais cultos eram transmitidos oralmente; o acesso aos mesmos só pode ser feito através de uma análise histórica que trabalha em cima de fontes não escritas. Ginzburg assim, vai buscar redesenhar cultos xamânicos e pagãos que existiam subterraneamente entre populações camponesas, por exemplo, se valendo de fontes alternativas, como fontes literárias ficcionais. Alguns dirão que a literatura apregoa alguma impossibilidade de determinação, tanto do autor/narrador, quanto do leitor, em relação ao fictício que lhe é intrínseco. Mas Ginzburg, tenta resolver esse complicado impasse. Ginzburg considera o uso de tais fontes como legítimas na medida em que associa essa forma literária à necessidade de submeter alguma coisa à verificação. Captar-se-ia na literatura e em outras formas de texto de época, o que escaparia à institucionalização. Ginzburg vai se valer da literatura inglesa, e analisa em sua obra “Nenhuma ilha é uma ilha”, dentre outras obras, a Utopia de Thomas More. Fala da Utopia sobre “as dimensões múltiplas de um texto facetado e fugidio”, mas trata também do poder de obras de ficção de atualizar e presentificar para o leitor implícito e explícito, a “ekpharasis” que já vinha da tradição retórica antiga, quer dizer, poderia propor “uma estranha sensação de realidade”.

É a partir da metodologia e das descobertas de Ginzburg que Toaff trabalha a questão da "páscoa de sangue", como um culto mágico que existia no subterrâneo da religião judaica de antanho e que pode ser devassada a partir de fontes documentais não oficiais – embora elas deixem rastro em documentos oficiais - mas por meio das narrativas populares, tradições, etc. Tal culto não deixou os mesmos rastros documentais como deixavam os cultos tradicionais dos judeus. Desta forma Toaff, seguindo os passos de Ginzburg, devassa a questão explorando aquilo que não era dito de forma evidente mas apenas insinuado.

Façamos, então, uma suma da tese de Toaff:

-Toaff baseia sua pesquisa sobre libelos da época que falam de assassinatos rituais cometidos por grupos judaicos.

-Ele mostra que o sangue humano coagulado era vendido por mercadores medievais, pois se considerava que ele tinha poder medicamentoso o que é fartamente documentando.

-Toaff não demoniza os judeus em sua obra. Ao inverso, desculpa seus assassinatos rituais alegando que eram reações à violência dos cristãos que os perseguiam por serem tidos como o povo deicida. Ele alegou, inclusive, que não se tratava de dizer que os judeus, em geral, apoiassem o assassinato ritual mas que, alguns grupos extremados, o praticavam. Afirmar que o livro tenha algo ligado a anti semitismo só é possível para completos ignorantes na matéria.

-Toaff se baseia no processo de São Simão de Trento ao qual teve acesso. Ele afirma que "Eu encontrei parte de declarações e depoimentos que não correspondiam à cultura cristã dos juízes, que eles não poderiam ter inventado ou acrescentado ao que eram os textos que aparecem nas orações conhecidas do livro judaico de orações", e que: "Ao longo de dezenas de páginas ficou provado o papel central do sangue na Páscoa". Baseado em: "muitos sermões, concluí que foi usado sangue, especialmente pelos judeus asquenazim, e que haviam as crenças nos poderes curativos do sangue de crianças". Aliás sobre tal poder curativo ficou provado acima que a expansão da magia entre os judeus, no fim da idade média, é um fato incontestável.

-Toaff mostra que, na época, havia, como ele diz: "um mascate/vendedor ambulante, Asher, que negociava com açúcar e sangue procedente de Veneza...Eu fui aos arquivos de Veneza e descobri que havia um vendedor ambulante que trocou açúcar e sangue, produtos básicos de uma farmácia naquele período". Embora os judeus fossem proibidos de consumir sangue humano ou animal, Toaff provou que encontrou permissões rabínicas de uso do sangue, inclusive de origem humana: "Os rabinos permitiram porque se tratava de sangue que já estava seco". Tudo isso fica claro a partir do contexto de magia no interior do judaísmo como provamos acima.

Perante tudo o que foi exposto conclui-se que o caso de São Simão foi verdadeiro e que, perante todo o contexto de cabalismo, feitiçaria e magia judia, fica provado não só que o caso do menino de Trento, assassinado por judeus, é real, como também que o surto herético ligado aos cultos de bruxaria coletiva no fim do medievo tem relação direta com esse caldo de cultura.

A Igreja, sabiamente, reconheceu o fato e colocou o nome de Simão no martirológio romano, além de considerá-lo um mártir do ódio judeu contra a Igreja de Cristo. O testemunho de diferentes papas sobre isso torna inapelável qualquer alegação em contrário. A partir do exame histórico e das decisões eclesiásticas sobre o assunto é impossível, a católicos, tomar o caso de São Simão de Trento como um mal entendido.

Bibliografia:
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Besserman, P. Cábala y misticismo judío. Introducción a la filosofía y la práctica de las tradiciones místicas del judaísmo. Barcelona. Oniro, 1998.
Estopañán, Sebastián Citrac. Los procesos de hechicerías en la Inquisición de Castilla la Nueva (Tribunales de Toledo y Cuenca). Madrid, 1942.
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Ginzburg, C. O inquisidor como antropólogo. Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 1, nº 21, pp. 09-20, set. 1990/fev. 1991.
Metzger, Mendel. La vie juive au Moyen Âge, illustrée par les manuscrits hébraïques enluminés du XIIIe au XVIe siècle. Fribourg. Office du Livre, 1982, p. 260.
Murray, Margaret. O culto das bruxas na Europa Medieval. São Paulo, Madras, 2006.
Russel, Jeffrey; Alexander, Brooks. História da Bruxaria. São Paulo, Aleph, 2008.
Safran, A. La cábala. Barcelona. Martínez Roca, 1976.
Sáenz Badillos, Angel. Judíos entre árabes y cristianos. Luces y sombras de una convivencia.Córdoba. Ediciones El Almendro, 2000.
Scholem, G. La cábala y su simbolismo. Madrid. Siglo XXI, 1979.
Trachtenberg, Joshua. Jewish Magic and Superstition. A Study in Folk Religion. New York, 1939.
Walter, D. P. Spiritual and demonic magic: from Ficino to Campanella. Londres, 1958. 
#Rafael G. Queiroz.
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O Distributivismo surge como um movimento intelectual social-cristão na Inglaterra de início do século XX. Seus fundadores Hilaire Belloc e Gilbert Chesterton, desenvolveram uma original concepção de liberdade a partir da propriedade familiar: o homem tem o direito natural sobre sua própria casa, seus filhos e seu pequeno negócio. 

A militância de ambos na Liga Distributista aponta para uma perfeita concatenação de ideias, embora o distributismo em Belloc ganhe tons mais nostálgicos em razão de sua formação de historiador, desejoso do retorno ao equilíbrio estável de uma sociedade de pequenos proprietários consagrada no medievo cristão. Já o distributivismo de raiz chestertoniana se volta mais ao terreno do sagrado para estabelecer os elos entre o corpo humano, o lar doméstico e a propriedade familiar. O enaltecimento da caridade em Chesterton talvez demonstre essa sutil diferença entre os dois autores, mas não devemos esquecer que falamos fundamentalmente de peculiaridades estilísticas mais do que qualquer outra coisa. 

Assim, a partir desses autores torna-se possível identificar uma agenda mínima de políticas distributistas, que chamamos aqui de Manifesto Distributista, abrangendo o seguinte corpo de legislação e de políticas públicas:

- a taxação diferenciada de contratos de compra e venda para desencorajar a absorção das pequenas propriedades pelos grandes proprietários, acompanhada de impostos fundiários para estimular a fragmentação da grande propriedade (Chesterton, 1927; Belloc, 1949);

- o estabelecimento de uma common law para os pobres para que possam defender a pequena propriedade contra o Estado e os grandes proprietários (Chesterton, 1927);

- um complexo sistema de proteção tarifária: a) com taxas sobre os grandes negócios e subsídios aos pequenos proprietários (Chesterton, 1927); b) que seja progressivo para estimular a distribuição da propriedade das grandes empresas a um maior número de acionistas (Belloc, 1913); c) e que seja proporcional ao número de lojas de cada proprietário e ao volume de mercadorias comercializadas (Belloc, 1949);

- o fomento às associações voluntárias de trabalhadores autônomos e pequenos proprietários (Chesterton, 1927); com o uso de fundos públicos originados do sistema tributário diferenciado (Belloc, 1949);

- um sistema de crédito bancário às avessas que garanta juros mais altos às aplicações dos pequenos poupadores (Belloc, 1913);

- a aprovação de barreiras legislativas de proteção aos pequenos produtores agrários, pequenos distribuidores e pequenos comerciantes, como a proibição de comercialização de certos artigos no catálogo da grande loja ou grande comércio (Belloc, 1949);

- o desenvolvimento de tecnologias voltadas às necessidades dos pequenos produtores e ao bem-estar social (CHESTERTON, 1927).

A estratégia é, sempre que possível, adotar barreiras às fusões e sanções às grandes unidades produtivas, mesmo que o processo produtivo descentralizado resulte ao final em eficiência um pouco reduzida e em produtos um pouco mais caros. O bem-estar das famílias deve vir antes de tudo! 

Para as empresas que dependem da operação em larga escala, através do caso das empresas de construção de linhas férreas, Belloc propõe que sua propriedade seja estendida ao maior número possível de funcionários em uma estrutura cooperativa. 

Belloc acrescenta em The Servile State a necessidade de um Estado Distributista, ou seja, de um corpo de leis que vise preservar a pequena propriedade distribuída contra as investidas dos grandes capitalistas. Chesterton também incorpora essa ideia de um Estado Distributista diante da necessidade de regulação derivada do ambiente de sistemas econômicos híbridos, que inicialmente se voltaria à "eliminación de esa particular presión plutocrática" (2010, p. 81). 

Finalmente, é importante observar que ambos estavam desacreditados no sistema parlamentar inglês, assaltado pelos lobbies dos interesses plutocráticos. Por esta razão, o primeiro passo da estratégia distributista somente poderia vir pela tomada de consciência ou mudança espiritual gradativa das pessoas quanto à necessidade de defesa da pequena propriedade.




Referências:
BELLOC, Hilaire. O Estado Servil. Curitiba: Livraria Danúbio Editora, 2017 [1913].
_____. La Restauración de la Propriedad. Buenos Aires: Poblet, 1949. 
CHESTERTON, Gilbert K. Los límites de la cordura. Madrid: El Buey Mudo, 2010 [1927]. 

#Liga Distributista do Rio Grande do Norte
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Derrotando a Esquerda no Campo da Justiça Social

O poder da esquerda se assenta nos sindicatos revolucionários, no movimento dos sem terra e numa camada numerosa de intelectuais orgânicos (religiosos, jornalistas e professores). Todos esses segmentos sociais foram conquistados pela sedutora promessa de justiça social, e ainda que na prática nenhuma nação socialista tenha realizado este compromisso, a falta de conhecimento quanto a existência de um discurso alternativo no campo conservador tem propiciado a perpetuação da esquerda em nosso país. Mas como romper com esse círculo vicioso?

A resposta é simples: a defesa da pequena propriedade distribuída pode alcançar a justiça social real, combatendo o poder oligopolista capitalista ao mesmo tempo em que combate a influência dos sindicatos e partidos revolucionários e disputa espaço com a hegemonia cultural gramscista. 

O que é Distributismo?

O Distributismo foi um movimento anglo-cristão de início do século XX, inspirado na Doutrina Social da Igreja. Mas ao invés de seguir o caminho simplista da socialdemocracia de promoção de melhorias sociais (como as políticas de distribuição de renda), enfatizava a necessidade de distribuir a propriedade privada ao maior número possível de famílias. O objetivo principal do movimento era promover a justiça social através da valorização da família enquanto unidade econômica, já que sua sobrevivência moral e econômica era solapada a cada dia pela expansão dos oligopólios empresariais.

Assim, seus teóricos principais Gilbert Chesterton e Hilaire Belloc criticaram a tendência concentradora da propriedade privada pelas grandes corporações capitalistas, ao mesmo tempo em que não se convenceram da viabilidade social da fórmula socialista de estatização da propriedade já que teria o Estado por único dono. Para eles, a questão era, então, alcançar um sistema político e econômico fundado na liberdade e no direito à propriedade privada, sem perder de vista o princípio da justiça social.

Onde o Distributismo já foi aplicado?

As reformas agrárias implementadas em países como os Estados Unidos são belos exemplos de políticas distributistas. Lamentavelmente, a concentração de terras acabou se manifestando a posteriori em razão da adoção do modelo da grande agroindústria de exportação. 

Outro exemplo é Taiwan, onde uma engenharia social distributista foi aplicada durante o governo de ocupação do general Douglas MacArthur. O título da terra foi então transferido aos camponeses mediante o pagamento de obrigações de longo prazo (10 anos) aos proprietários fundiários. Ao mesmo tempo, para atender o consumo rural crescente de insumos e maquinários, esses títulos pagos aos ex-proprietários fundiários foram direcionados ao esforço de industrialização desse país que viria a se tornar num dos tigres asiáticos. 

Diversos cidades europeias também adotam regulamentações contra os grandes empreendimentos. Assim, Madrid tem poucos shopping centers; e Paris cede espaço ao Grupo Carrefour apenas nas afastadas vias periféricas, visando a poupar os pequenos estabelecimentos familiares da predação dos hipermercados. 

Infelizmente, seguimos aqui o modelo urbano dos Estados Unidos, ainda que nossa Constituição de 1988 mencione a função social da propriedade. Algumas poucas municipalidades se adequaram ao Estatuto da Cidade de 2001, exigindo estudo de impacto de vizinhança para grandes empreendimentos comerciais, ainda que consista basicamente num conserto de medidas paliativas.  

Onde aplicar no Brasil? 

Acreditamos que nos setores intensivos em mão de obra e de pequena escala, a produtividade sistêmica não seria afetada por um regime de propriedade distribuída. A agricultura de grãos é altamente mecanizada e seria ilógico o fracionamento excessivo da terra, mas a situação já é diferente para a cultura de hortigranjeiros, que é intensiva em mão de obra. 

Nos serviços urbanos também temos hoje enorme possibilidade de multiplicação da pequena propriedade familiar sem afetar a produtividade da economia nacional. Afinal, se a produção de automóveis exige a grande indústria, a produção de sanduíches não... Nem a academia de esportes, a farmácia, o açougue, o mercadinho, o instituto de beleza, e tantos outros. Em todos estes segmentos, a aplicação do modelo distributista é viável, além de justa.


#Liga Distributista do Rio Grande do Norte
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O Brasil Paralelo é uma produção ideológica que visa "americanizar" a história do Brasil.

O Episódio 2 do Brasil Paralelo teve coisas positivas, aliás, a intenção do Brasil Paralelo parece-me a princípio, muito positiva, que é romper com uma narrativa anti-portuguesa, materialista de esquerda em relação a nossa história. Todos que aprenderam história do Brasil pelos óculos da esquerda, aprenderam uma história do Brasil sem heróis (ou quase sem heróis visto que a esquerda tem seus heróis pessoais) e desinteressante. A história do Brasil seria, portanto, objeto de vergonha, escárnio, opróbrio e vexame. Seria uma história de tragédias, desgraças, opressão, golpes e exploração. Nesse sentido, o Brasil Paralelo por fazer uma história patriota (ainda que secular) tem seu mérito, embora não fique claro se seu intento é plenamente atingido.

Mas não posso deixar passar coisas ditas que são inverídicas. Os fins não justificam os meios; já dizia o ditado popular. O segundo episódio embarca, especialmente no seu final, na tese de Bruno Garschagen em seu livro "Pare de acreditar no Governo"; de que o sucesso do Brasil dependeu sempre dos períodos em que o Estado não foi presente. O livro é uma verdadeira peça ideológica feita com o único intuito de encaixar a história brasileira na narrativa da escola austríaca de economia. O número de distorções, falácias contrafactuais, anacronismos é assombroso e reside na base mesma do argumento de Garschagen. Não cabe neste artigo tocar em todos estes pontos, mas mencionarei uns de passagem.

Garschagen trata a economia como se tivesse leis econômicas imutáveis e perfeitamente atemporais, bem como rígidas como as leis da física. Nada mais falso, como demonstrado por economistas keynesianos (Steve Keen – Debunking Economics) e distributistas (John Médaille - Toward a truly free market). O jurista e filosofo Christopher Ferrara em The Church and libertarian aponta o mesmo, na qual fica claro que as organizações sociais dos mais diferentes estilos podem apresentar um traço ou outro que existe no capitalismo moderno, mas não os mesmos e nem na mesma quantidade. A lei da oferta e da demanda, mesma, é no máximo uma tendência econômica (soft law) que tem como base certos comportamentos humanos, mas jamais uma lei física, uma hard law, como pontua Thomas Woods (The Church and the market). Só da obra decidir analisar uma história multissecular em categorias como corporativismo no seu sentido moderno (crony capitalism), intervencionismo (como se falássemos de escolas desenvolvimentistas, keynesianas, kaleckianas, e não de um lento desenvolvimento de uma estrutura feudal corporativa em sentido medieval) já é em si mesmo um perfeito exemplo de anacronismo.

Nisto, inclusive, Garschagen deixa pouco a desejar a um marxista que reduz a história a essas mesmas leis econômicas universalmente válidas e que aparecem (sob a óptica marxista) na dialética materialista desta escola de pensamento. 

Contudo, como o assunto é o episódio dois da série Brasil Paralelo: "A Última Cruzada"; a Legião pediu-me que escrevesse uma análise. E ao ver o mesmo, percebi que muito do que foi narrado já estava previamente no livro de Garschagen; vou abordar em meus argumentos elementos apontados tanto no filme quanto no livro como forma de apontar erros ao meu ver, não acidentais. Também, mostrar incongruências entre a tese de Garschagen e a exposição da própria série. 

É óbvio - deixo claro – que toda obra historiográfica esbarra em algum discurso ideológico, mas que não se deriva daí que ela tenha a ideologia como fim. O caso é que a obra do Garschagen foi feita tendo a ideologia como fim, selecionando para uma conclusão pré-concebida, as evidências conforme o seu gosto. Acusação séria? Sem dúvidas. Contudo, como veremos, não é de toda sem fundamento.

Quando o episódio trata dos jesuítas até o Marquês de Pombal, é praticamente todo o trecho da obra de Garschagen que vai da página 35 até página 53 que está transposto em imagens, desenho, trilha sonora e entrevista. 

No livro, na página 38, Graschagen argumenta que o crescimento econômico do fim do século XVII se deve a não intervenção do Estado na economia, especialmente no mercado interno. Na página seguinte, 39, ele completa seu raciocínio dizendo que a causa do fracasso dos negócios em Pernambuco foi a atuação do Estado. Em resumo: O Brasil cresce porque o Estado não atrapalha, e naufraga onde o Estado põe a mão.
"O Brasil colônia viveu um momento de grande crescimento econômico no fim do século XVII e no início do século XVIII por conta da expansão de seu mercado interno, e não das exportações. Esse ambiente de negócios aquecidos provocava elevações gerais de produção e de preços por todo o território [...] A única região que não acompanhou as demais foi a que na época era formada pelos atuais estados da Paraíba e Rio Grande do Norte."
E por que não acompanhou? Garschagen acusará o Estado português. Isto poderia ser um erro simples, poderia ser uma análise equivocada, mas me parece pura e simples omissão imperdoável.

Garschagen omite enormes intervenções estatais portuguesas no período, de acordo com Furtado (1979, p.69) para corrigir os problemas da balança comercial ocasionadas pela crise do açúcar que devido à concorrência das ilhas do Caribe, havia minado o monopólio português sobre o produto no mercado Europeu.
"As repetidas desvalorizações cambiais (o valor da libra sobe de mil-réis para três mil e quinhentos réis entre 1640 e 1700) refletem a extensão do desequilíbrio provocado na economia lusitana."
Como João Fragoso coloca na sua História Econômica do Brasil Colônia, até que D. Maria I proibisse as manufaturas em definitivo no Brasil, em fins do século XVIII, a atividade manufatureira seguia aqui anêmica, espreitada entre as limitações do Estado através Governo-Geral e da vista grossa da autoridade às necessidades do mercado interno.

Com as desvalorizações cambiais, os produtos ingleses que chegavam ao Brasil através da Metrópole chegavam muito mais caros, o que favoreceu um desenvolvimento manufatureiro, que passou a tirar braços da agricultura, uma das razões inclusive, que levou Dona Maria a emitir seu famigerado decreto. Garschagen omite que, desvalorizações cambiais produzem inflação de custos e queda posterior de demanda dos produtos manufaturados importados.

No episódio, mais especificamente, fica claro que a alegação de que o estatismo nasce aqui com o Marquês de Pombal é um exagero inspirado em Garschagen, mas que além de ser uma versão muito mais simplista (já que Garschagen no livro coloca o dedo do estado português desde a aurora do país), é mais conveniente aos propósitos do documentário. Nem ele, Garschagen, mesmo ousou escrever uma tese dessas, de que aqui havia liberdade plena de mercado. 

O episódio dois coloca uma ideia muito estranha em cena, a de que antes de Pombal, vigorava aqui o mais estrito liberalismo econômico, e que graças a Pombal, o estatismo veio a grassar por aqui. Nada mais falso, como o próprio Garschagen coloca (p.30), o Brasil é uma obra de "Parceria Público-Privada" (outro anacronismo, visto que as relações feudo-vassálicas medievais eram de característica análoga). 

Desde o primeiro momento, o Brasil sofreu uma enorme carga de intervenções da Metrópole. Favores políticos e honrarias típicas de uma sociedade ainda bastante feudal em seu funcionamento eram feitas àqueles fidalgos que instalassem engenhos no Brasil; inclusive isenções de tributos no início (FURTADO, 1979, p.41). Os colônos que viessem para o Brasil e instalassem fortes e vilas para extração de Pau-Brasil, tiveram isenção tributária no primeiro ano, entretanto, no segundo, terceiro e quarto os impostos cresceram vorazmente (cf. VIANNA, p.109)

Só o fato de o Brasil ser um monopólio já é uma contradição com a ideia de que aqui vigorava o mais livre dos livres mercados. A capitulação de Zaragoza em 1529 envolveu justamente as monarquias espanhola e portuguesa negociando uma trégua na pirataria e no contrabando de Pau-Brasil. Para exploração do território nacional, era necessário ter cartas de marca, que se não fosse obtida por cair nas graças do Rei, era obtida por preços enormes que somente a aristocracia lusa era capaz de pagar.

Em 1534, começa a política da vintena para que se instalasse em definitivo aqui uma colonização com cidades e vilas, na qual a côrte subsidiaria 80% dos custos de instalação da empresa colonial, deixando apenas 20% nas contas privadas. 

Momento Dilma:

No raiar no século XVII, temos um "momento Dilma", a medida em que os capitães donatários adentravam o território e ia extraindo pau-Brasil, o Rei Filipe II, passou a fazer concessões e arrendamentos de campos de extração régios à pequena e média nobreza luso-hispânica, por períodos pré-determinados de tempo. Tal prática ainda hoje, com as devidas modificações tecnico-históricas, são muito similares às praticadas pela ex-presidente Dilma Rousseff na questão dos aeroportos. Convenhamos, que não é de maneira alguma, o melhor exemplo de "liberalismo econômico". 

É forçoso lembrar o que Alfred Müller-Armack coloca em "Regime Econômico e Política Econômica", que uma economia pode ser livre sem ser liberal; em geral as relações econômicas no medievo eram livres, mas não eram liberais visto que as instituições do capitalismo moderno não existiam e que as ideias liberais ainda não haviam nascido. Então, só de tratar de "intervencionismo" no episódio como se fosse a mesma coisa que intervencionismo hoje, é mais um caso de anacronismo.

Momento Marina Silva:

Em 1605, o Rei Filipe II, preocupado com os danos às florestas de Pau-Brasil que a extração legal e ilegal para contrabando causavam, impôs neste mesmo ano aquela que pode ser considerada em certo sentido a primeira lei ambiental brasileira. É óbvio que é força de expressão, pois a consciência ambientalista que move Marina Silva não existia àquela época, mas como o fim prático foi a preservação do Pau-Brasil, pode-se dizer que por meios e ideias outras (as de seu tempo), os fins eram análogos. O Regimento, segundo Vianna (1967, p.115): "Pretendia com isto evitar o desaparecimento das matas, que a destruição sistemática do vegetal determinaria." E como não fosse interferência bastante, já após o fim da união entre Espanha e Portugal, determinou a côrte lisboeta a criação em 1649 da Companhia Geral do Comércio do Brasil, quer seria uma espécie de "Pau-Brasilbrás" ou "Cana-de-açúcarbrás", para fazer extração de engenhos e campos de extração régios, regular e comprar dos engenhos privados e vender para a Europa. Ou seja, livre comércio? Nem pensar, temos aqui algo que vagamente nos lembra um misto de empresa estatal e agência reguladora; guardados - é claro - ás devidas distinções históricas.

A cana-de-açúcar não eram distintas, desde as ilhas oceânicas dominadas por Portugal, já se vinha instalando engenhos para extração do açúcar. Na Ilha da madeira havia os chamados "lagares do Principe". O que eram? Engenhos de cana-de-açúcar cuja propriedade era régia. Em 1550 já havia no Brasil uns poucos engenhos. Um deles chamava-se "Engenho do senhor governador"; que seria isso se não um engenho pertencente ao governo que residia na capital da colônia?

Quanto aos lagares e engenhos privados, os impostos muitas vezes ascendentes, extraíam bons recursos para a coroa, ao passo que no nordeste dominado por holandeses em meados do século XVII, a arrecadação despencava com derrubadas de impostos para estimular a produção em vias de fracassar. Em 1640 os holandeses extraíram 400.000 florins de taxas sobre os engenhos, 5 anos depois havia despencado para 229 mil. Ou seja, os holandeses eram bem mais liberais que os imposteiros ibéricos. Não obstante isso, os engenhos foram um sucesso no centro-sul. Em 1570, havia 60 engenhos no Brasil e se exportava 70 mil arrobas de açúcar; 14 anos mais tarde eram 115 engenhos exportando 350 mil arrobas. Em 1711, 141 anos depois, esses valores já estavam em muito superados, mais de 500 engenhos e exportando 1 milhão e 400 mil arrobas; um crescimento de mais de 10 vezes nesse período.

Então, ao que parece, todo o estatismo não foi um problema para a empresa colonial portuguesa.

Celso Furtado na Formação Econômica do Brasil mostra a lucratividade desse sistema, a renda líquida oscilava entre 2 milhões de libras e 2 milhões e meio de libras que ficava retido nas mãos de uma população europeia que não passava dos 30 mil habitantes. Em termos per capita os colônos eram riquíssimos! (p.43)

E mais Estado...

Com o falhanço das capitanias, o Rei teve de assumir muitas delas, então no maravilhoso "liberalismo econômico" do Brasil Paralelo (alegação que mistura uma caricatura de Garschagen e de Caldeira), havia até capitanias "estatais"! Garschagen na página 39 diz que a coroa havia decidido intervir e se apropriar da capitania de Pernambuco para colher impostos. Será? Vianna (1967, p.267) nos responde: "Tendo competido a coroa, e não ao Donatário, a maior parte das despesas causadas pela guerra e expulsão dos holandeses de Pernambuco, também passou à administração régia esta capitania, a mais rica da época".

Ou seja, no Brasil paralelo de Bruno Garschagen os conflitos entre luso-brasileiros e neerlandeses não causaram danos e despesas, não é uma beleza? Como o sociólogo Oliveira Vianna (1938, p.63) coloca, e bem, os ímpetos mercantis e comerciais dos portugueses não foi mais que uma fase bem aproveitada que logo se esmaeceu:
"Desde os primeiros dias da nossa história, temos sido um povo de agricultores e pastores. O espírito comercial dos portugueses do ciclo das navegações, dominante na sua expansão para as Índias, desde que penetra terra brasileira se obscurece, perdendo, aos poucos, a sua energia até desaparecer de todo."
Vianna apontará alguns fatores na sequência:

(1) A grande extensão territorial do país. os portugueses lançavam-se ao mar devido a um território pequeno e pouco fértil. O mar era o complemento necessário da subsistência dos lusitanos.

(2) Ao chegar no Brasil, ao contrário dos Espanhóis que deram de frente com civilizações pujantes, os portugueses deram de cara com povos tecnologicamente muito atrasados e que viviam de uma agricultura rudimentar, caças minguadas e até mesmo nomadismo.

Num ambiente tão pouco propício ao comércio e com uma "terra que tudo dá", não poderia nascer um povo comercial como o ianque, mas sim uma civilização mestiça de agricultores e pastores. 

Vianna (1938, p.86) ainda pontua que as distâncias eram muito grande entre um latifúndio e outro, de modo que toda a vida social ocorrida dentro destes latifúndios ao derredor da atividade açucareira que passa a compor o zênite da vida cultural na colônia. Um único engenho podia estar encerrado num terreno de 14 quilômetros quadrados a quase 170 quilômetros quadrados (2 a 20 léguas), área que abarcaria muitos municípios do Brasil hoje.

Não custa lembrar que o Brasil era parte de Portugal, então olhar tudo da óptica brasileira como se fôssemos um sistema autônomo é um erro. Em 1684, Portugal aplicando medidas protecionistas conseguiu praticamente abolir o comercio de tecidos ingleses em suas terras. Medidas estas que só seriam derrubadas na aurora do século seguinte pelo pacto de Methuen (cf. FURTADO, p.81). Então, onde está o tal "liberalismo econômico" que o Brasil Paralelo alega?

As democracias liberais do Brasil

Segundo o Brasil Paralelo, num outro grande anacronismo, o Brasil foi a primeira democracia liberal do ocidente, pois nas câmaras municipais havia eleições. O que eles não contam é que as eleições usavam um sistema tardo-feudal que já existia não só em Portugal mas também em outros reinos da Europa. Aliás, as raízes do sistema podem ser rastreados até o Império Romano, pois eram elegíveis apenas os "homens bons". Quem seriam eles? Nobres, funcionários públicos e membros do clero. Uma mistura do romano boni et optimi herdado através dos antigos reinos visigóticos com as velhas estamentações feudais. Não custa lembrar que na Revolução Francesa, o sistema de três estados era bem parecido, clero, nobreza e populacho.

Não só isso! Que raios é esse de democracia liberal que aquele que era um dos cargos mais relevantes do sistema, se não o mais, que era o de juízes de fora eram indicados diretamente pela coroa? Logo, além de anacrônico, forçar a alegação de "democracia liberal" no Brasil colônia é também uma forçação de barra sem precedentes, pois poderíamos falar assim da tão louvada pelos libertários, Islândia medieval, que tinha um sistema jurídico popular e democrático, uma república. Poderíamos falar também da república de Cospala e outros lugarejos medievais que eram bem mais democráticos do que o sistema brasileiro, enfim.

Em que pese ter seu mérito, o Brasil Paralelo se ampara sobre afirmações que não constituem meros erros históricos, mas claramente omissões de fatos e de mentiras ideologicamente motivadas, com a finalidade de americanizar (The star-spangled heresy) a história do Brasil, e tais intentos são muito pouco históricos e muito mais políticos. O que pretendem estes senhores? Não sei ainda. Mas acompanhemos até onde irá o Brasil Paralelo com essa narrativa.



#Arthur Rizzi
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A técnica e suas maravilhas são capazes de levar multidões de juvenas ao êxtase. A cada novo videogame, a cada nova bugigada da Apple, vemos uma multidão de fãs fanáticos em peregrinação. A Técnica (Tecnologia) é um dos ídolos (falso-deus) adorados pelos neopagãos hodiernos.

Forçando a analogia, assim como todos os deuses dos antigos pagãos são demônios, o ídolo da técnica pode vir a tomar o mesmo caminho, e em tempos de “êxtase” ainda há neopagãos com suficiente bom senso para perceber isto, e manifestar sua preocupação através de sua arte (no caso aqui tratado o cinema).

Inúmeros filmes (alguns bons, outros não tão bons e muitos horríveis) do gênero ficção científica tem trabalhado a imagem do demônio da técnica. Em O Exterminador do Futuro e Matrix temos a expressão gnóstica da criatura se revoltando contra o criador, se na modernidade o homem divinizou a si mesmo, nestas obras, a cria do homem, as máquinas, se revoltam contra este, reduzindo-o a escravidão. O conto de fadas distópico gnóstico de ambas as obras (que não recomendo a mentes fracas, pois além de cenas lascívias, as obras propagam falsas ideias heréticas) é interessante, mas de modo algum próximo a realidade. O robô, a máquina jamais será capaz de tal ato, desenvolver alma, consciência? Tolice! O homem não é um deus, não é capaz de criar vida, a máquina ao final será sempre um títere, o perigo não está no boneco, mas em quem manipula as cordas. Que em um futuro distópico as máquinas podem ser usadas para a criação de uma ditadura perversa e totalitária é uma possibilidade real, mas que o cérebro por trás dessa ditadura seria um cérebro robótico, isso é tolice! O poder estaria nas mãos das empresas que fabricam e controlam as máquinas, os velhos executivos de terno e gravata a dirigir as grandes corporações, protegidos por seu exército robótico.

Embora ausente nas obras citadas, a ideia de super corporações no topo de um governo despótico não é ausente na ficção científica. Em Avatar (mais uma obra não recomendada, alimenta o mito do bom selvagem de Rousseau e está recheada de propaganda esotérica da Nova Era) um planeta inteiro é devastado em favor dos lucros do grande capital; em O Vingador do Futuro (tirando algumas piadinhas imorais, pouco tenho a reclamar sobre está obra) o oxigênio, na ficção um recurso gratuito e abundante no planeta vermelho, é dito como escasso para não prejudicar os lucros da corporação que o comercializa. Mera ficção sem base alguma na realidade? Penso eu nos inúmeros desastres ecológicos silenciados, ou talvez na proposta de um dos figurões da Nestlé de privatizar a água….


Em O Sexto Dia (um bom filme, apesar das piadas imorais) temos nós também uma imagem interessantíssima da influência do lobby econômico sob o governo. No filme, os mais desonestos meios são usados a fim de pressionar o governo a revogar a chamada Lei do Sexto Dia, e permitir a clonagem humana, dar ao homem o poder de brincar de deus (velha heresia gnóstica). A narrativa apresentada pelos lobbystas? A “ciência” contra o “fundamentalismo” religioso. O paralelo do filme com as indústrias assassinas do aborto, eugenia e eutanásia é inevitável. Pena, que na vida real não temos um Schwarzenegger irritadiço para frustrar as pretensões gnósticas dos grandes figurões que pensam poder brincar com a vida humana.

Mas, se a Técnica restrita ao domínio das grandes corporações é um problema, tanto mais o é nas mãos do governo, e isto não escapa as lentes do cinema. No anti-clerical Equilibrium (onde é forçada uma analogia entre o governo totalitário e a Igreja Católica), ou em O Doador de Memórias (bom filme, vale a pena ver), onde, tal qual em Admirável Mundo Novo, o governo droga seus cidadãos a fim de manter a alienação perpétua, além de assassinar os improdutivos via eutanásia e extinguir as famílias em prol de uma produção de bebês em escala industrial sob o domínio da burocracia (está última ideia está inclusive presente em Superman: O Homem de Aço), a tirania da técnica sob o domínio estatal é desvelada. O que é isto senão o projeto novordista que vem sendo implantado em todo o mundo?

Se, a ralé dos idiotas neopagãos ainda insiste em idolatrar a técnica, ao menos algumas das figuras desta fauna já se libertaram dessa vulgar ilusão, e manifestam sua descrença pelas lentes do cinema.

Voltemos as cavernas então? Como a herética seita dos Amish, deixemos a Cidade em prol das Serras, fujamos para Walden? Não é isso que ensina a doutrina católica, Pio XII reafirma em Miranda Prorsus que a tecnologia em si é neutra, tendo potencial para ser usada tanto para o bem quanto para o mal.

É interessante notar como a quase hegemônica alienação televisiva foi quebrada com o advento da internet. Se o monopólio das técnicas de difusão de conteúdo seja sob as mãos do Estado laicista moderno, seja sob o poder das grandes corporações proporciona grandes males, a democratização dos meios de difusão representou uma grande dor de cabeça aos grandes figurões. Personagens controversos como Assange e Snowden tem sido incômodas pedras no sapato dos novordistas. Diante de tudo isso, em meio a esta cultura neopagã em que a tecnologia tem seu uso por vezes direcionado o mal, ao menos é melhor que esteja acessível a muitos, e não concertada nas mãos de poucos.

Concluindo, idolatrar a técnica pela técnica independente de seu uso é uma grande tolice que só pode ser concebida por neopagãos idiotas. Esta tem um potencial maléfico surpreendente, contudo a demonização desta parece uma tolice igual. O mais racional diante desta realidade é a boa e velha ética cristã, orientar o uso da técnica pelas leis morais da Igreja, e disseminar o seu uso, a fim de que tal arma não esteja sob o monopólio de poucos figurões. Neste sentido, viva o Linux!

#Edmundo Noir
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