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O pensador, jornalista, escritor, poeta, ensaísta, novelista, professor, tradutor, congregado mariano, líder negro e monárquico e doutrinador patriótico, nacionalista e tradicionalista Arlindo Veiga dos Santos é sem sombra de dúvida um dos maiores e mais olvidados intérpretes da realidade deste vasto Império chamado Brasil e um pensador da Tradição só comparável, entre nós, a um Plínio Salgado, um Alexandre Correia, um Heraldo Barbuy, um José Pedro Galvão de Sousa, um Leonardo van Acker, um João de Scantimburgo, um Jackson de Figueiredo, um Eduardo Prado, um Manoel Lubambo ou um Sebastião Pagano.

Nascido na cidade paulista de Itu no ano de 1902, o criador e mais importante líder e doutrinador do Patrianovismo - movimento defensor de uma Monarquia orgânica, social e popular realmente vinculada às tradições e realidades nacionais – era negro, a despeito de descender também de portugueses e índios, sendo, portanto, um homem oriundo das três “raças” formadoras da nacionalidade brasileira. É Arlindo, ademais, um exemplo vivo do quão errados estavam os intelectuais patrícios que – seguindo Gobineau, Vacher de Lapouge, Houston Stewart Chamberlain e outros arautos da pretensa superioridade étnica “ariana” – tanto amesquinharam e achincalharam o negro, o índio e o caboclo de nossa terra, como bem denuncia Plínio Salgado em seu Manifesto de Outubro [1], assim conhecido por haver sido divulgado a 07 de outubro de 1932.

O Patrianovismo, principal legado de Arlindo Veiga dos Santos a esta sua amada Terra de Santa Cruz, surge na Imperial Cidade de São Paulo do Campo de Piratininga no ano de 1928, com a fundação do Centro Monárquico de Cultura Social e Política Pátria-Nova, que a partir do ano seguinte publica a revista Pátria-Nova, saudada com entusiasmo por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) [2], e que se transforma, já na década de 1930, na Ação Imperial Patrianovista Brasileira.

A Ação Imperial Patrianovista Brasileira, cujo símbolo era a Cruz da Ordem Militar de Cristo com as pontas em flecha ou lança [3], não reuniu tantos adeptos quanto a Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado ou formou uma constelação de intelectuais tão resplandecente quanto esta, com a qual tinha, aliás, diversas semelhanças do ponto de vista doutrinário. Reunindo, porém, dezenas de milhares de membros, ou, segundo alguns, mesmo algumas centenas de milhares e formando, ademais, um pugilo de pensadores também fascinante, configura-se como o maior movimento político monárquico do Brasil republicano e um dos mais extraordinários grupos da inteligência do País.

O Patrianovismo, “doutrina dinâmica com base no princípio estático-dinâmico da tradição” [4], é um movimento patriótico, nacionalista e tradicionalista que prega a recristianização integral da Nação Brasileira, opondo-se tanto ao liberal-capitalismo quanto ao comunismo, e sustenta a Monarquia tradicional, onde o príncipe reina e governa, sendo, pois, chefe de Estado e de Governo, mas tem seu poder concretamente limitado pelos Grupos Naturais, ou Grupos Intermediários, por meio do asseguramento institucional da autonomia social de tais grupos, que tem sido negada tanto pelos Estados ditos “democráticos” quanto pelos Estados totalitários.

A doutrina patrianovista recebe influência da Action Française de Charles Maurras e Léon Daudet e sobretudo da Doutrina Social da Igreja, de pensadores brasileiros como Jackson de Figueiredo e Alberto Torres e do Integralismo Lusitano de António Sardinha. Cumpre salientar, com efeito, que Pátria-Nova foi o nome de um semanário integralista de Coimbra dirigido por Luís de Almeida Braga, um dos fundadores e principais dirigentes e doutrinadores daquele movimento.

Em 1931, Arlindo funda a Frente Negra Brasileira, que, sob sua liderança, configura-se como o maior e mais sadio movimento negro da História não apenas do Brasil mas também de toda a chamada América Latina, que preferimos denominar América Hispânica, posto que o Brasil é tão hispânico quanto seus vizinhos, da mesma forma que Portugal é tão hispânico quanto a Espanha [5], constituindo as duas grandes nações lusófonas duas das diversas Espanhas de que fala o magno jurista e pensador espanhol Francisco Elías de Tejada [6].

Havendo citado o nome de Tejada, insigne discípulo e continuador de Donoso Cortés e mui provavelmente o maior pensador político tradicionalista espanhol do século 20, importa salientar que este foi um conhecedor como poucos do Brasil e de sua História, como demonstra em trabalhos como As doutrinas políticas de Farias Brito [7] e que foi amigo pessoal de Arlindo Veiga dos Santos, bem como de José Pedro Galvão de Sousa e Plínio Salgado [8], dentre outros homens de pensamento patrícios. Foi Tejada, ademais, o representante, em Espanha, da revista bilíngue de cultura Reconquista, fundada em São Paulo no ano de 1950 por José Pedro Galvão de Sousa.

A revista Reconquista, cujo nome foi sugerido por Arlindo Veiga dos Santos [9], um de seus principais colaboradores, orientou-se pelos mesmos princípios norteadores do Patrianovismo, tendo entre seus articulistas pensadores da estirpe de um Heraldo Barbuy, um Clovis Lema Garcia, um Hipólito Raposo, um Fernando de Aguiar (seu representante em Portugal), um Alberto de Monsaraz, um Octavio Nicolás Derisi, um Rafael Gambra, um Pablo Lucas Verdú e de outros tão ilustres, incluindo, é claro, os supracitados José Pedro Galvão de Sousa e Francisco Elías de Tejada.

Foi Tejada, ainda, quem, em belo artigo sobre Arlindo Veiga dos Santos, incluiu o autor de Idéias que marcham no silêncio... entre “os maiores expoentes atuais do pensamento político tradicional das Espanhas cristãs e antieuropéias” [10].

Poeta inspirado, Arlindo evoca, em poemas cristãos e patrióticos como Sentimentos da Fé e do Império [11], o passado heróico da Nação Brasileira, surgida não no momento da chegada de Cabral, mas sim muito antes, no “Milagre de Ourique”, louvando nossas tradições e raízes lusíadas e hispânicas.

Tradutor de valor, Arlindo verteu para o nosso idioma obras como Do governo dos príncipes ao rei de Cipro e Do governo dos judeus à duquesa de Brabante, de Santo Tomás de Aquino [12], O crepúsculo da civilização, de Jacques Maritain [13], Organização monárquica do Estado, de Jacques Valdour [14], e As doutrinas políticas de Farias Brito, de Francisco Elías de Tejada [15].

Professor de Latim, Português, Inglês, História, Sociologia e Filosofia, o autor de Para a Ordem Nova [16] lecionou em instituições de ensino superior tais como a Faculdade de Filosofia de São Bento, a Faculdade Sedes Sapientiae, a Faculdade de Filosofia de Lorena e a Faculdade de Filosofia da Universidade de Campinas, bem como em colégios como o São Luís e o Anglo-Latino, na Capital Paulista.

Falecido em sua cidade natal no ano de 1978, Arlindo Veiga dos Santos é um nome totalmente sabotado e praticamente desconhecido no Brasil. Não é, porém, de hoje que seu nome e suas idéias “caminham no silêncio”, pois, como já denunciava o então patrianovista Luís da Câmara Cascudo, no dealbar da década de 1930, em artigo publicado no Diário de Natal, Arlindo era um “mestre solitário”, um “alto pensador” lamentavelmente sabotado por uma “força invisível” [17].

Sejam estas singelas e mal traçadas linhas a nossa homenagem ao Mestre Arlindo Veiga dos Santos, heróico e inspirado poeta e arauto de uma Pátria-Nova, cujo nome e idéias um dia deixarão de marchar no silêncio e constituirão – juntamente com os ensinamentos de outros mestres de Brasilidade – um farol que iluminará esta Terra de Santa Cruz no caminho de sua missão histórica.

#Victor Barbuy

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Esse artigo é dedicado aos católicos que hoje em dia vivem tecendo louvores aos EUA como se estes fossem a maior nação cristã da história. Para desmontar essa mentira vamos aos fatos:

>Beato Pio IX apoiou os confederados contra os ianques na Guerra de Secessão[1];

>São Pio X recusou encontro com Theodore Rossevelt quando da ida deste a Roma:
[...]The pope [Pius X] had no time for either socialists or Protestants, and in 1910 refused to receive President Theodore Roosevelt unless the American president cancelled his planned visit to a Methodist church in Rome. The president refused.[...]
>Os EUA deram reconhecimento diplomático à Santa Sé apenas em 1984: a URSS foi por eles reconhecida em 1933 [2], [3];

>As liberdades americanas (políticas e religiosas) foram condenadas diversas vezes pelos pontífices:
§Alguns homens, negando com completo desprezo os princípios mais certos da sã razão, atrevem-se a proclamar que a vontade do povo, manifestada pelo que eles chamam de opinião pública ou de outro modo qualquer, constitui a lei suprema, independente de todo o direito divino e humano. ("Quanta Cura" - Pio IX)

§Muitos dos nossos contemporâneos, seguindo a pegada daqueles que no século  passado deram-se a si mesmos o nome de filósofos, afirmam que o poder vem do povo [...]. Muito diferente é neste ponto a doutrina católica, que coloca em Deus, como em princípio natural e necessário, a origem do poder político. ("Diuturnum Illud" - Leão XIII)

§Daquela heresia nasceram no século passado uma filosofia falsa, o chamado novo direito, a soberania popular e uma descontrolada licença, que muitos consideram como a única liberdade. ( "Diuturnum Illud" - Leão XIII)

§As leis ordenam-se ao bem comum, e não são ditadas pelo voto nem em juízos falazes da multidão, senão pela verdade e pela justiça. ("Diuturnum Illud" - Leão XIII)

§Desde o momento em que se quis atribuir a origem de toda a humana potestade, não a Deus, Criador e dono de todas as coisas, senão à vontade arbitrária dos homens, os vínculos de mútua obrigação que devem existir entre os superiores e os súbditos, afrouxaram-se ao ponto quase chegar a desaparecer [...]. Perante semelhante desenfreio no pensar e no fazer que destrói a constituição da sociedade humana, [...] recordamos aos povos aquela doutrina que não pode ser mudada pelo capricho humano: Não há autoridade senão por Deus, e as que existem, por Deus foram ordenadas. ("Ad Beatissimi" - Bento XV)


§Não menos nocivo para o bem-estar das nações e de toda a sociedade humana é o erro daqueles que com tentativa temerária pretendem separar o poder político de toda a relação com Deus, do qual dependem como de causa primeira e de Supremo Senhor, tanto os indivíduos como as sociedades humanas. ("Summi Pontificatus" - Pio XII)

>S.S. Papa Leão XIII repreende a pretensão de conciliar a religião católica com o zeitgeist norte-americano:
[...]But in the matter of which we are now speaking, Beloved Son, the project involves a greater danger and is more hostile to Catholic doctrine and discipline, inasmuch as the followers of these novelties judge that a certain liberty ought to be introduced into the Church, so that, limiting the exercise and vigilance of its powers, each one of the faithful may act more freely in pursuance of his own natural bent and capacity. They affirm, namely, that this is called for in order to imitate that liberty which, though quite recently introduced, is now the law and the foundation of almost every civil community. (Testem Benevolentiae Nostrae)
>Lembro ainda que os Estados Unidos combateram a Santa Aliança e apoiaram o separatismo dos chefetes anticlericais , maçônicos[4] e republicanos da América Latina contra a Espanha, à qual a Igreja exortava que os reinos das Índias Ocidentais mantivessem sua fidelidade. À usurpação do régio poder das Majestades Ibéricas pela Doutrina Monroe (a transliteração do messianismo protestante do Destino Manifesto na geopolítica) a Igreja opunha a legitimidade monárquica católica. Em vez de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, os pontífices propugnavam aos espanhóis americanos por Fé, Hierarquia e Tradição [5] ,[6].

>Ademais, é sobretudo a partir dos Estados Unidos que o Estado laico é promovido na Terra, e a Igreja sempre condenou tal modalidade de Estado:
[...]Em primeiro lugar, a religião do Novo Mundo é maçônica. Todos os signatários da Declaração da Independência, sem exceção, pertencem a alguma loja maçônica. Desse momento em diante, ninguém, mas absolutamente ninguém, faz carreira política nas três Américas sem ter de entrar para a Maçonaria, prestar satisfações à Maçonaria ou enfrentar a Maçonaria. (...) Só que, entre apóstolos e inimigos dessa organização, mais são os interessados em mistificar do que esclarecer o seu papel na história espiritual da humanidade. (...). [Olavo de Carvalho, em O Jardim das Aflições (§29, pg.236)]

(...) Ora, qual o legado dessa Revolução[Americana] ao mundo? A democracia? Não pode ser, visto que ela convive perfeitamente bem com ditaduras, quando lhe interessa, e visto que a subsistência de uma aristocracia maçônica associada de perto a uma oligarquia econômica é um dos pilares mesmos do sistema norte-americano. O capitalismo liberal? Também não, porque o próprio sistema norte-americano, através da expansão do assistencialismo estatal, acabou por assimilar várias características da social-democracia. O republicanismo? Não, porque os elementos democráticos e igualitários da ideologia norte-americana que se espalharam pelo mundo puderam, sem traumas, ser incorporados por antigas monarquias tornadas constitucionais, como a Inglaterra, a Dinamarca, a Holanda, a Espanha. Dos vários componentes da ideologia revolucionária norte-americana, o único que foi assimilado integralmente, literalmente e sem alterações por todos os países do mundo foi o princípio do Estado leigo. Se é verdade que ‘pelos frutos os conhecereis’ ou que as coisas são em essência aquilo em que enfim se tornam, a Revolução Americana só é democrática, republicana e liberal-capitalista de modo secundário e mais ou menos acidental: em essência, ela é a liquidação do poder político poder político das religiões, a implantação mundial do Estado sem religião oficial.(...) [Olavo de Carvalho, em O Jardim das Aflições (§30, pg. 164)]

#Victor Fernandes
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Os professores e autores de manuais de História do Brasil, em regra adeptos do decrépito e mofado credo marxista, ao qual o sociólogo Guerreiro Ramos se referiu alhures como “a mais influente força obscurantista da história contemporânea” [1], vêm, há já decênios, amesquinhando os construtores da Nação Brasileira, intentando inocular em nossas crianças e adolescentes o vírus, nefando como nenhum outro, do desprezo pelas tradições e pelos antepassados. Desconhecem eles a lição de Renan no sentido de que todos os séculos da História de uma Nação são folhas de um só livro, de sorte que não se engrandece e não se enobrece uma Nação caluniando aqueles que a fundaram [2], assim como desconhecem a análoga preleção de Arlindo Veiga dos Santos, quando este bravo poeta e arauto da Fé e do Império proclama que “o Presente que nega o Passado não terá futuro” [3]. Aliás, ao desconhecer tais lições, esses agentes, conscientes ou não, da antitradição e da antinação se mostram coerentes com o pensamento marxista, o que não acontece, porém, com o Sr. Aldo Rebelo, Deputado Federal pelo Partido Comunista do Brasil, que, em opúsculo sobre os Construtores do Brasil [4], faz justiça a grandes vultos da História Pátria em regra demonizados pela “historiografia” marxista, a exemplo de D. Pedro I, de José Bonifácio, do Duque de Caxias, do Almirante Tamandaré, da Princesa Isabel, do Barão do Rio Branco, de Plácido de Castro, de Felipe Camarão, de Henrique Dias, do Padre Manoel da Nóbrega, de Tibiriçá e do Bandeirante Raposo Tavares, adotando, pois, curiosamente, uma posição verdadeiramente nacionalista e mesmo tradicionalista...

Poucos vultos da História do Brasil têm sido tão atacados, achincalhados e satanizados quanto os Bandeirantes. E é justamente a eles que devemos a nossa extensão territorial, várias vezes maior do que aquela definida pelo Tratado de Tordesilhas em 1494. Daí Plínio Salgado, a quem chamamos algures “Bandeirante da Fé e do Império” e “encarnação viva do Espírito Bandeirante” [5], sendo importante ressaltar que a Doutrina por ele legada, o Integralismo, não é senão, em suas próprias palavras, a “última expressão do espírito bandeirante” [6], daí Plínio Salgado dizer que para que sejamos dignos da obra imperecível e do sacrifício dos Bandeirantes e para que nosso nome não seja amaldiçoado pelas gerações futuras, devemos fazer do gigantesco território conquistado palmo a palmo por esses Homens fortes, bravos e abnegados uma Nação unida, forte e respeitada, condenando vigorosamente os separatistas, renegadores da “herança de honra dos Bandeirantes” [7].

Os Bandeirantes de São Paulo do Campo de Piratininga foram, como salienta Oliveira Vianna, “a nobreza paulistana”, “nobreza guerreira” e “não de riqueza”, isto é, nobreza cujos títulos de nobilitação estavam em seus feitos como sertanistas e não nas riquezas por eles acumuladas, sendo “nobres porque bravos – e não porque ricos”. Esses “caudilhos do sertão”, componentes, pois de uma “aristocracia de guerreiros”, tinham, ainda na expressão do autor de Instituições Políticas Brasileiras, “a preferência, reservada a toda e qualquer nobreza, para os cargos da governança”, podendo se inscrever nos “livros de S. Majestade” justamente porque podiam “exibir os seus grandes feitos no sertão, as suas mais notáveis gestas de bandeirantes” [8].

Em que pese a vontade, aliás natural e legítima, dos Bandeirantes, de enriquecer e descobrir tesouros no sertão, a causa do Bandeirismo é, consoante salienta Félix Contreiras Rodrigues, “essencialmente moral”, estando “presa ao imenso sonho paulista de conquistar para seu rei (...) um imenso império, que tivesse por divisa os mais claros limites naturais – o Atlântico, o Prata, o Paraná, o Paraguai, os Andes e o Amazonas” [9]. Ademais, para compreender o nobre e elevado espírito dos Bandeirantes Paulistas, basta recordar, ainda no dizer do sociólogo gaúcho, “quantos e quantos habitantes de Piratininga, dos das suas melhores linhagens, abandonaram seus lares e seus haveres para levarem ajuda aos Nordestinos, quer contra os Holandeses, quer contra os Cariris, e os Guerens, quer contra os Negros de Palmares. (...) E a São Paulo devemos esse primeiro alinhavo da nacionalidade, posto que nunca regateou sua proteção a qualquer ponto da Colônia que precisasse dela” [10].

No mesmo sentido, João de Scantimburgo faz sublinhar, em sua obra Os Paulistas, de 1982, o profundo “sentido de missão” que revestia a “formidável organização militar” em que se constituía a Bandeira, observando que os mais notáveis historiadores das Bandeiras, a exemplo de Afonso d’Escragnolle Taunay, Alfredo Ellis Junior, Paulo Prado e Cassiano Ricardo, não foram buscar na Tradição Portuguesa a origem da vocação missionária dos Bandeirantes, continuação daquela vocação missionária que moveu Portugal e caracterizou toda a ação dos Portugueses, isto é, do dever de dilatar a Fé e o Império. Sem pretender entrar na “querela teológica da predestinação”, o autor de Os Paulistas e de Tratado Geral do Brasil pondera que há, em determinadas fases da História, nações predestinadas, havendo sido Portugal uma de tais nações. Parece ter sido a Nação Portuguesa, com efeito, “escolhida pela Providência para criar um grande Império, pela Contra-Reforma opor-se à Reforma, e erigir nos trópicos uma nação continental, cujo destino apenas ainda se delineia, mas que, provavelmente, será decisivo nos tempos futuros” [11].

Muitos anos antes de Scantimburgo, já havia Plínio Salgado compreendido, integralmente, o verdadeiro sentido e a verdadeira origem da missão dos Bandeirantes, prelecionando, em sua obra Nosso Brasil, de 1937, que a História da Nação Brasileira, “como continuidade da vida de uma das mais cavalheirescas nações europeias”, não tem o seu início em 1500, mas sim no momento da fundação da Nação Portuguesa e que todas as glórias de Portugal até 1822 são patrimônio comum a todos os descendentes dos heroicos cavaleiros da Reconquista e das Cruzadas, dos magnos cientistas que desenvolveram a arte da navegação, dos nautas que enfrentaram e venceram os mares ignotos, “dos descobridores do caminho das Índias, dos soldados, marujos, escritores e poetas, que foram os primeiros europeus a atingirem a costa oriental da África, os extremos da Ásia e as ilhas misteriosas do Pacífico” [12].

Em seguida, frisa o autor de Como nasceram as cidades do Brasil que “essa tradição de inteligência, de coragem, de universalismo, de sonhos grandiosos e de fé sequiosa por dilatar o Reino do Cristo, continuou no Brasil, plasmando o caráter, a consciência dos Brasileiros. O desbravamento dos nossos sertões pelos Bandeirantes, a reconquista do solo pátrio ocupado pelos Holandeses e pelos Franceses, a evangelização levada às tabas selvagens, o cruzamento das raças americana, africana e europeia, sob a inspiração da igualdade humana perante Deus, tudo isso foi continuação de uma história que principiou quando D. Afonso Henriques, em 1140, desembainhando a sua espada ensinou-nos, por todo o sempre, que devemos bater-nos com ardor e denodo por Cristo e pela Nação” [13].

No mesmo sentido, o assinalado pensador, escritor e Homem de ação patrício, em discurso proferido a 13 de junho de 1960, por ocasião da entronização da imagem de Cristo no plenário da Câmara dos Deputados, observa, em magistral discurso, que os Bandeirantes “levaram Cristo no coração, como os cruzados” e que:
“Na continuação da obra de cruzada de Portugal pelos oceanos do mundo, eles, através de nossos sertões, levaram as imagens de Cristo em seus alforjes, para, quando atacados pelas moléstias tropicais, feridos pelas serpentes e sentindo aproximar-se os limites da vida terrena, tivessem o consolo, na solitude imensa dos sertões, de beijar aquela imagem, erguendo o pensamento bem alto, aprofundando-se no sentimento da fé cristã e morrendo legando seus ossos como balizas para as novas arrancadas bandeirantes da Pátria brasileira , que agora se reinicia, neste instante histórico da fundação da nova Capital, da marcha para oeste. Ossadas que ficaram para sempre marcando a nossa capacidade de agir, de lutar, de vencer, vanguardas perdidas indicando-nos os eternos caminhos da destinação cristã da Pátria brasileira” [14].

No ano seguinte, em monumental discurso proferido na Câmara dos Deputados, em Comemoração ao Dia de Ação de Graças, Plínio Salgado agradece a Deus por nos haver feito compreender que a sua Santa Cruz deve andar, deve navegar, deve “ir de país em país, dilatando a fé e o Império – a fé em Cristo e o Império de Sua Lei -” e também por haverem nossos antepassados, os Bandeirantes, “com rudes botas, chapelões desabados e facão à cinta, dilatado este imenso Império e nos legado este vasto patrimônio territorial” [15].

Isto posto, faz-se mister assinalar que o fenômeno do Bandeirantismo, embora tenha tido, inegavelmente, seu principal centro em São Paulo, se fez presente em diversos outros pontos do País, em particular na Bahia, no Pernambuco e no Pará.

O Bandeirantismo Baiano, centrado no poderoso clã dos Garcia d’Ávila, foi magistralmente retratado no romance As minas de prata, do notável escritor e também político e jurista cearense José de Alencar, criador de uma literatura verdadeiramente nacional e nacionalista, inspirada, antes de tudo, nos costumes e nas tradições do nosso Povo, e que, por sinal, descendia de sertanistas que haviam palmilhado os sertões em nome dos Garcia d’Ávila.

As minas de prata, obra que podemos situar entre as mais importantes do autor de O guarani e de Iracema, se constitui em um dos mais significativos romances brasileiros que retratam o fenômeno do Bandeirantismo, ao lado de A muralha, de Dinah Silveira de Queiroz, e A voz do Oeste, de Plínio Salgado, estes sobre o Bandeirantismo paulista. Registre-se, aliás, que tanto Dinah quanto Plínio eram descendentes de vultos do Bandeirantismo, descendendo a primeira do Bandeirante Carlos Pedroso da Silveira, que ocupou, dentre outros, os cargos de Capitão-Mor Governador e Ouvidor de Itanhaém, de Mestre de Campo Governador de Taubaté, Pindamonhangaba e Guaratinguetá e de Provedor dos quintos reais em Taubaté, Guaratinguetá e, após a extinção destas casas de fundição, em Parati, é considerado a mais importante figura de todo o primeiro ciclo do ouro nas Gerais [16] e é, ainda, personagem de A muralha. Já o segundo descendia de Manuel Preto, o “conquistador de Guairá”, reconhecido como um dos maiores sertanistas do século XVII, havendo contribuído consideravelmente para a expansão do Império nas terras que hoje compõem o sul do Brasil [17] e que é personagem de A voz do Oeste.

Paulo Bomfim, poeta de São Paulo, de sua História e de sua Tradição, lançou, em 1960, a ideia da criação do “Dia do Bandeirante”. Afonso d’Escragnolle Taunay, Alfredo Ellis Júnior, Tito Lívio Ferreira, Guilherme de Almeida e Júlio de Mesquita Filho emprestaram “o prestígio de seus nomes ao movimento” [18]. Este último escreveu, com efeito, no jornal O Estado de São Paulo, a 16 de novembro daquele ano, um artigo intitulado Notícia Nova:
“Atendendo ao apelo de um poeta, um governador resolve criar condições para que São Paulo se debruce sobre seu passado. Por decreto do governo do Estado [do Governador Carvalho Pinto], foi instituído em São Paulo o “Dia do Bandeirante”, destinado a marcar o início da “Semana do Bandeirante” que é comemorada nos principais núcleos de bandeirantismo do Estado, tem por fim acentuar “a importância do bandeirismo na formação da nacionalidade brasileira, notadamente o sentido histórico, geográfico e humano do movimento sertanista de São Paulo (...)

“Essa pois, é uma notícia que escapa inteiramente à rotina do jornalismo cotidiano. Que nasceu do apelo de um poeta, e que se transformou em decreto pela compreensão de um chefe de Estado” [19].
Mais tarde, o Dia do Bandeirante se tornou nacional. Infelizmente, porém, pouquíssimos são os brasileiros que sabem de tal dia e menos numerosos ainda são aqueles que o celebram. Tendo em vista, pois, a relevância dos Bandeirantes para a História e para a Tradição Nacional e conscientes de que esses bravos soldados da Fé e do Império devem servir de exemplo a todos os verdadeiros patriotas e nacionalistas deste vasto Império, que existe graças especialmente a eles, proclamamos a imperiosa necessidade de celebração do Dia Nacional do Bandeirante. E defendemos, ademais, a igualmente imperiosa necessidade de vivificação do Espírito Bandeirante em todos os rincões da Pátria, ressaltando que o Espírito Bandeirante não é senão o Espírito da Nobreza de que tanto temos falado e que tanto temos oposto ao nefando Espírito Burguês ora dominante no Mundo.

Que o Espírito Bandeirante inspire o nosso Nacionalismo, Nacionalismo sadio, justo, ponderado, equilibrado e construtivo, alicerçado na Tradição e tendente ao universalismo, que não pode e não deve ser confundido com o internacionalismo burguês e apátrida do liberalismo e do marxismo, sendo, antes, o universalismo cristão tão bem praticado na Europa durante a denominada Idade Média. E que os Bandeirantes nos abençoem e caminhem conosco em nossa árdua porém gloriosa Marcha por Cristo e pela Nação, pela Fé e pelo Império!


#Victor Barbuy

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Em 1888 a maçonaria começava a tramar o fim do Império Brasileiro. Então os vereadores de São Borja, no Rio Grande do Sul, votaram um requerimento que exigia, no caso de falecimento de Dom Pedro II, os brasileiros fossem consultados a respeito ou não da oportunidade de um terceiro reinado. 

O motivo? O fato de a Princesa Isabel, que era quem tinha por direito a sucessão ao trono, ser ultracatólica. No texto do documento se dizia que caberia decidir "por meio de um plebiscito se convém a sucessão ao trono brasileiro de uma senhora obcecada por uma educação religiosa"

A ação orquestrada da maçonaria contra a Princesa Isabel foi o fato mais importante e imediato relativo à queda do império. 

Antes do requerimento ser votado na câmara de São Borja ele fora discutido na Loja Maçônica, Vigilância e Fé, em tais termos: 
"A maçonaria que se levante, opondo-se firmemente, no caso da morte do imperante, à sucessão de Isabel. Que evite por todos os meios...a coroação da princesa. O povo que se autogoverne e a maçonaria intervenha para a fundação de um governo livre e moralizado".
Embora o Grande Oriente do Brasil não tenha tomado posição oficial sobre o documento - dado que estava dividido entre monarquistas e republicanos - várias figuras de proa da maçonaria assinaram o documento como Campos Salles, Prudente de Morais, Quintino Bocaiúva, Benjamin Constant, Rangel Pestana, Francisco Glicério, Aristides Lobo, Lauro Sodré, etc. Cabe lembrar que Constant, Glicério e Lobo foram os grandes articuladores da ação de 15 de novembro de 1889 contra Dom Pedro II. 

Em Santos, estado de São Paulo, em 1888, aproveitando o requerimento de São Borja, o líder maçom Antônio da Silva Jardim, deu início a fortes manifestações pela criação da república. Várias cidades aderiram ao requerimento inclusive o Rio de Janeiro, capital do império. 

Os maçons apresentavam Isabel como mais interessada no bem da Igreja que no da pátria, "hoje nós passamos o dia inteiro na Igreja, começando por assistir à missa" escrevia Isabel ao marido em 1875. O papa Leão XIII, em reconhecimento pela Lei Áurea, lhe concedeu a rosa de ouro, alta honraria dada pela Sé romana. Ao recebê-la em 1888 das mãos do núncio apostólico, jurou obediência ao papa. Para a elite maçônica, presente na vida política do Brasil, era inaceitável que a futura imperatriz ficasse ao lado do papa, pois isso implicaria na aplicação, dentro do país, das decisões de Pio IX contra a maçonaria que envolvia o apoio para que bispos excomungassem católicos filiados a seita. 

Em suma: a "proclamação" da república foi um golpe maçônico. A fim de manter seu controle sobre as estruturas de poder no Brasil e de continuar a interferir diretamente no processo governamental, ela armou uma trama para impedir que a Princesa Isabel moralizasse o governo tirando dele a interferência desta seita oculta que age sob a direção de líderes secretos. Isabel queria livrar o país de uma sociedade que segue suas próprias leis e que age ocultando seus propósitos reais. Isabel, neste ponto, era mais republicana que os maçons republicanos, na medida em que ela queria um governo liderado por pessoas sem vínculos com sociedades ocultas, estranhas a qualquer controle público. A maçonaria, na medida em que se furta ao controle externo, se põe entre as mais perigosas associações pois impede a população como um todo, o acesso ao exame de suas ações e o conhecimento de seus agentes e de suas reais intenções quanto a temas políticos, religiosos, sociais. Um povo sob o tacão de um grupo secretista, que age nas sombras, é um povo escravo. Era disso que Isabel queria nos livrar. 

Bibliografia:
Gomes, Laurentino. 1889. Rio de Janeiro, Editora Globo, 2013. 

#Rafael Queiroz

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Mais uma vez a série “Brasil Paralelo” dá um show de ignorância, burrice, malícia, desinformação e mau caratismo.

Para que fique claro o capítulo 3 da série – Marxismo cultural no Brasil que pode ser assistido aqui – se fundamenta em diversos erros crassos em matéria de história e análise política, cujo único fim é desnortear o público sobre a verdadeira natureza da questão que atinge o ocidente e o Brasil, tecendo críticas ao socialismo mas sem desvendar o que lhe dá base e, ainda, orientando, maliciosamente, os espectadores a um liberalismo sutil.

Vamos aos mesmos:

Minuto 4: faz -se uma referência a dialética hegeliana nos seguintes termos:
(...) o homem vê o mar e intelectualmente ele pode imaginar que a água está fria ou quente; daí ele considera os riscos e benefícios de entrar nele e disso nasce a dialética histórica de Hegel.
Sejam sinceros, senhores: algum de vocês já leu uma descrição tão grotesca da dialética de Hegel? Não, tampouco nós!

A dialética hegeliana tem relação com a razão negativa. O conceito de gato inclui o “não gato”, o ser inclui o “não ser”, a oposição, o contrário. As coisas, para Hegel, são e não são ao mesmo tempo, desde um ponto de vista conceitual. Só podemos conceber um ser a partir, também, do que ele não é. Temos aí uma dialética das idéias e, na história, estas idéias são o fundo do movimento temporal. Um exemplo: Napoleão pensava em termos de expansão das teses de liberdade da revolução francesa. Ele derrubou tronos mas ao custo de impor, aos povos libertos deles, o domínio francês; logo, a liberdade desejada produziu o inverso dela, qual seja, a opressão francesa. Isso trouxe a reação ao poder napoleônico e a derrota de Bonaparte. A tese era a liberdade revolucionária, a antítese a reação absolutista, a síntese, os nacionalismos produzidos pelas invasões napoleônicas: já que é de liberdade que se trata o império napoleônico, então queremos liberdade para nossa pátria sob nossos critérios e não sob os da França, dirão os nacionalistas, levando a história a uma nova etapa fruto do advento de novas idéias.

A descrição do vídeo é completamente sem sentido, não atingindo, nem de perto, o cerne do que é, exatamente, a dialética de Hegel.

Minuto 5: aí se afirma que:
Marx alega que de fato a dialética de Hegel que moveria o mundo é a luta de classes.
Marx jamais disse tal coisa. Marx sabia que a dialética de Hegel não envolvia classes mas as idéias, que seriam a base do movimento histórico. Marx inverte a dialética hegeliana e a lhe dá um novo acento: ele conceberá a mesma sob o signo do movimento ou do processo da matéria; as idéias são fruto das condições econômicas. Já Hegel considerava a dialética independente das condições materiais.

Minuto 5: fala-se de Moses Hess como patrono de Marx mas nada sob sua condição judaica!


Como sempre a olavosfera esconde, propositalmente, o fundo judaico do marxismo. Sobre Moses cabe dizer que foi pai do sionismo e que, antes mesmo de Marx, já vinha teorizando sobre utopia revolucionária com base no messianismo judeu, onde, inclusive, considerava que o sucesso de um movimento proletário e socialista só seria possível com a adesão dos judeus e em cima de uma ideologia fundada em Spinoza – filósofo judeu que foi um dos pais do iluminismo e que via a humanidade caminhando rumo a um novo Éden de liberdade e igualdade.


O Brasil Paralelo simplesmente esconde o fundo ideológico judaico do marxismo. Recordemos o que diz Paul Johnson sobre Marx e o judaísmo em sua obra “História dos Judeus”, páginas 359-360:
Sua maneira de ver a história, como uma força positiva e dinâmica na sociedade humana, governada por leis férreas, uma Torá de ateu, é profundamente judaica. Seu milênio comunista se arraiga...no messianismo judaico. Sua idéia de domínio é a de um catedocrata. O controle da revolução ficaria nas mãos da inteligentsia de elite, que tinha estudado os textos, compreendido as leis da história. Eles formariam o que ele chamava de gerência, o diretório. O proletariado, “os homens se substância”, eram apenas o meio, que devia obedecer...a metodologia de Marx era inteiramente rabínica…a teoria de Marx de como a história, a classe e a produção funcionam...não é diversa da teoria luriânica cabalista da idade messiânica, em especial tal como emendada por Natan de Gaza.
Minuto 6: aí se alega que a teoria do valor trabalho de Marx está errada - mas ela não é de Marx e sim de Smith/ Exaltação da escola austríaca.!

O vídeo em questão deixa clara sua opção: importa defender as bobagens da escola austríaca, escola ultraliberal de economia em contraponto ao marxismo. Num outro momento um jornalista deplora o comunismo por ele ser contra a “liberdade” e a “vida”, concebendo, ambos os termos em sentido iluminista (indivíduo como dotado de liberdade absoluta).

O problema é que a teoria do valor-trabalho não é de Marx mas de um liberal, qual seja, Adam Smith. Ora, Smith assevera que o valor de algo indica o trabalho necessário para obtê-lo. Menger e a escola austríaca admitem que uma coisa pode dar muito trabalho para produzir e mesmo assim não valer nada. Para os austríacos algo só vale se alguém quiser comprá-lo. Entretanto, a pretensa dicotomia entre a tese de Smith e o desejo do consumidor para obter um produto como base real do valor, é uma falsa premissa. Nenhum produtor se dará ao trabalho de produzir uma mercadoria que não seja demandada pelos consumidores. Isto indica que nenhum produtor está disposto a fabricar o que ninguém quer. O trabalho só é ofertado se é demandado.

A teoria de valor na utilidade marginal de Menger, diz que a primeira garrafa de água que você tomar terá um valor muito alto. A segundo, com a mesma quantidade de trabalho da primeira, terá um valor inferior. E assim sucessivamente, até chegarmos a última garrafa, após toda sua sede ser saciada, que terá valor zero. Assim o valor independeria do trabalho que uma mercadoria precisou para ser produzida; se ela não tiver utilidade para ninguém, seu valor será igual à zero.

No entanto os “intelectuais” do Brasil Paralelo mal entendem o cerne da questão, tampouco o que Marx realmente disse sobre a questão do valor trabalho. Existe muita confusão do que de fato é a mercadoria segundo Marx. Imbecis austríacos costumam usar exemplos risíveis como: “Se você achar uma maçã caída de uma árvore, seu valor será enorme e a quantidade de trabalho será zero” ou “O ar não tem trabalho e é de enorme valor”. Em Marx, mercadoria é tudo aquilo que tem trabalho e utilidade – Marx escreveu sobre utilidade. Um buraco cavado no chão tem trabalho, mas não tem utilidade. Um buraco inútil não é mercadoria.


Marx usa um conceito onde define o duplo caráter da mercadoria no capitalismo. Valor-de-uso é como uma mercadoria tem valor em suas características intrínsecas, ou seja, tênis para calçar, água para beber. Já o valor-de-troca é como uma mercadoria não tem valor em si, mas transfere utilidade a outros, em troca de outros valores-de-uso. Ou seja, um vendedor de chocolate não vê utilidade em seus produtos, entretanto ele pode vendê-los para obter coisas úteis a si.


Uma fazenda inexplorada, por exemplo, tem valor-de-troca; só o trabalho do homem nela, gerará alimentos úteis. Em outras palavras, a terra só tem valor porque através dela é possível transformar a natureza, produzir mercadorias e trocá-las por valores de uso e isso só através do trabalho. O valor de uma fazenda virgem também tem trabalho: na descoberta, em seu atestado de que ela é produtiva e na sua comercialização. Em outras palavras, a terra virgem precisa ter valor social para ser vendida. 


A mercadoria tem uma função, o chamado valor-de-uso, ou seja, água para beber, celular para se comunicar, etc. Porém resumir esta relação ao consumidor final e o produto consumido, seria um erro: é este o erro dos austríacos. Nas sociedades reais há compartilhamento de valores e sensos estéticos. Por exemplo: ao comprar um celular posso, subjetivamente, optar pelo celular com certo design que mais me agrade, mas não posso descartar o valor do celular pois hoje o trabalho e a vida social o exigem, é algo posto de fora e desde cima sobre o indivíduo, um valor objetivo portanto. Evidentemente que um celular que oferece um plano de 2 GB é mais valioso que um que ofereça um de 1GB, e esse valor tem a ver com o trabalho necessário para fornecer o serviço de 2GB, maior que o necessário para fornecer o de 1GB.

Outro erro dos austríacos é considerar que a tese do valor trabalho justifica, imediatamente, o marxismo. Isto é falso pois Marx considerou erroneamente a questão do valor como sendo produzido unicamente pelo proletariado. A doutrina social da Igreja resolveu a questão mostrando que o pólo do trabalho nada pode produzir divorciado do pólo do capital. Enquanto os austríacos fazem o valor derivar, totalmente, do desejo individual subjetivo, o que leva a um consequente relativismo moral – já que o indivíduo produz o valor econômico por que não produz, também, todos os outros? - os marxistas fazem-no derivar apenas da classe trabalhadora esquecidos de que o capital gera os recursos necessários para que mercadoria possa ser fabricada: um agricultor precisa das ferramentas fornecidas pelo capital sem as quais não produzirá nada.

Minuto 7: movimento comunista não está baseado em ideologia diz Olavo;


Mas não é fato que todo comunista acredita em revolução comunista e que isso implica igualitarismo? Que ela passa por luta de classes? "Comunismo é cultura" mas ora cultura não tem idéias de base? Não é possível ligar a ideologia de Marx, Marcuse, Gramsci, etc, a um fundo de idéias comuns?

Olavo é um poço de contradição o que fica evidente quando lemos seu comentário sobre o que é marxismo no artigo A teoria econômica de Lord Keynes e a ideologia triunfante do nosso tempo: “A fusão de uma teoria econômica errada com a nefelibática filosofia da história de Hegel gerou um monstrengo teorético eficaz apenas como misticismo ideológico”. Vejam que o artigo deixa bem claro qual a ideologia triunfante atual, que seria o marxismo, de certo modo presente no keynesianismo. Olavo contra Olavo. Ora o marxismo é ideologia, ora não. Afinal, qual Olavo tem razão?

Minuto 8/9: referência aos jovens russos ligados ao movimento comunista


Mais uma vez o Brasil Paralelo desinforma sobre o papel judaico na formação desses núcleos comunistas na Rússia czarista do século 19.


Em relação a isto precisamos ressaltar que em março de 1881, o Czar foi assassinado por revolucionários judeus; o historiador judeu Simon Dubnow informa que, no mesmo ano que se fundou na Basiléia a organização sionista, em Wilno criou-se uma associação socialista – Bund – que teve um papel importante na propaganda revolucionária entre as massas judias que falavam o ídiche. Do Bund nasceram grupos judeus-russos que participaram das agitações revolucionárias em Moscou no ano de 1905. Para se ter um idéia em 1889 o partido social revolucionário, tinha uma seção terrorista sob controle do judeu Gershuni que foi a responsável pelo assassinato do ministro russo Sipyagin, do duque Serguei e do general Dubrassov, etc.


Minuto 10: Holodomor verdade inquestionável (Leandro Ruschel, empresário de Miami)

A questão do Holodomor não é consensual entre pesquisadores de história, havendo muitas discussões sobre o tema, mas é claro que sub intelectuais, como os do Brasil Paralelo não sabem disso.


Sobre o tema o historiógrafo André Liebich diz que:


Liebich: Apesar do Holodomor ser reconhecido como genocídio por mais de 20 países, os académicos internacionais consideram que este não foi um ato com um intuito de exterminar um povo, pois outros países e outros povos foram, também afetados. Uma ideia, defendida, também, por André Liebich, Professor no Instituto de Altos Estudos Internacionais e do Desenvolvimento, Suíça, historiador especialista em países da ex-URSS.

Euronews: O primeiro artigo da lei ucraniana sobre o Holodomor define-o como genocídio do povo ucraniano. É reconhecido como tal em mais de 20 países. No entanto, para muitos, a utilização do termo’‘genocídio” não é o mais adequado. Por quê?

André Liebich: De facto, o termo é mal escolhido. Quando pensamos em genocídio, especialmente no contexto da década de 30, pensamos primeiro no Holocausto. Mas a diferença é que o Holodomor não afetou só o povo ucraniano, afetou também outros povos, no interior da Ucrânia e mesmo fora, como no Cazaquistão e na Rússia. Além disso, o Holocausto foi uma campanha, uma intenção de exterminar um povo, enquanto o Holodomor, se não houvesse milhões de vítimas, o que é indiscutível, não foi planeado com o intuito de erradicar o povo ucraniano. Foi o resultado de uma política desumana e brutal de Estaline, que não hesitou, perante o número de vítimas que iria criar. Mas a sua principal intenção não era eliminar os ucranianos mas realizar o seu programa, custasse o que custasse. Mesmo à custa de milhões de vítimas, especialmente agricultores, que eram, na sua maioria, ucranianos.
(In: pt.euronews.com)
Ademais há que dizer o seguinte: nos anos noventa, em resultado da acumulação de novos conhecimentos aprofundou-se o debate sobre a natureza da fome na Ucrânia. Esse debate foi marcado por diferentes interpretações:


1. A "revisionista" que relativiza a dimensão criminal – linha de Stephen Wheatcroft ou de Mark Tauger;


2. A "nacional",que salienta a especificidade genocidária do Holodomor ucraniano - James Mace, de Yuriy Shapoval ou de Nicolas Werth;


3. A "camponesa" que destaca, numa perspectiva pan-soviética, o uso da fome como "arma política" contra o campesinato – de Viktor Kondrashin ou Georges Sokoloff;


Minuto 11: não havia proletariado na URSS em 1917...a revolução foi feita só por uma elite


Esta é, sem sombra de dúvida, a maior prova da ignorância crassa dos intelectuais do Brasil Paralelo.

O que eram os soviets russos, senão sindicatos que reuniam proletários de São Petersburgo e Moscou?

A Rússia passou, entre meados ao fim do século 19, por um processo de industrialização sob a influência do capital anglo-francês. Isso gerou uma classe operária no país, presente nos grandes centros urbanos.

Isso é tão claro que não precisamos insistir demais para demostrar que tal alegação é pífia.


Minuto 14: a URSS não era a base do movimento comunista mas um órgão dele, diz Olavo.


Faltou, como sempre, dizer quem eram os verdadeiros agentes e pais do comunismo que haviam se servido da URSS.

A participação judaica na revolução russa de 1917 foi notável – havia muitos judeus no alto escalão do Partido Bolchevique. Logo após o triunfo da Revolução, o Partido Comunista criou uma seção dentro de sua organização, a Yevsetskyia, a seção judaica do partido. O objetivo desta organização era mobilizar os judeus do mundo em favor do regime soviético. Após o fim da Segunda Guerra a URSS votou a favor da partilha da Palestina em 1947 e foi o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel, acreditando que as lideranças de esquerda (Mapai, por exemplo, de Ben-Gurion) viriam a alinhar-se com a União Soviética contra a influência inglesa na região. A defesa da criação da nação israelense por parte das lideranças soviéticas é explícita. Ademais, a URSS foi o primeiro país a reconhecer Israel, antes mesmos dos EUA, e a pedir troca de embaixadores. As intervenções do embaixador da URSS, Andrei Gromyko, nos debates a respeito da partilha da Palestina foram contundentes:
A delegação da URSS sustenta que a decisão de dividir a Palestina está em consonância com os elevados princípios e objetivos das Nações Unidas. É em consonância com o princípio da autodeterminação nacional dos povos (…) A solução do problema da Palestina com base em uma partição da Palestina em dois estados separados será de profundo significado histórico, pois esta decisão vai atender às demandas legítimas do povo judeu, centenas de milhares, que como vocês sabem, ainda estão sem um país, sem casa, tendo encontrado abrigo temporário apenas em campos especiais em alguns países da Europa ocidental. (…) O fato de que nenhum Estado europeu ocidental tenha sido capaz de garantir a defesa dos direitos elementares do povo judeu, e para protegê-lo contra a violência dos executores fascistas explica as aspirações dos judeus de estabelecer o seu próprio Estado. Seria injusto não levar isso em consideração e negar o direito do povo judeu de realizar esse desejo. Seria injustificável negar esse direito ao povo judeu, especialmente em vista de tudo que sofreu durante a Segunda Guerra Mundial.
O sionismo socialista reinava absoluto na maioria dos partidos nascentes em Israel, ainda que poucos fossem claramente pró-soviéticos.

De fato o comunismo é um movimento que transcende a URSS e que foi, em grande parte, uma organização que vampirizou uma nação em função dos objetivos de uma elite de origens judias. Mas é claro que Olavo jamais vai esclarecer-nos sobre isso.


Quem for minimamente razoável que entenda. O Brasil Paralelo é uma farsa singular.



#Rafael Queiroz
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Eis o modelo civilizacional proposto pelo Brasil Paralelo, um país escravizado pela maçonaria.



Como já foi denunciado por Queiroz em seu artigo, o Brasil Paralelo pelo que podemos ver, de fato, progride para transformar a história norte-americana numa ideia platônica, uma categoria abstrata pela qual a história do Brasil será julgada e na qual deverá se encaixar. A americanização da história do Brasil e o liberalismo de fundo que rege o Brasil Paralelo ficam muito evidentes no episódio três.

O episódio três já começa com um “previously”, e, na sequência, o narrador afirma que é a parte mais importante da “saga”. Por que será? Simples, é a hora de liberalizar e americanizar o Brasil em definitivo. O episódio começa com a jura revolucionária na França, feita pelos Jacobinos. Contrapõem-se nele, a direita (reformistas bonzinhos) e a esquerda (jacobinos malvadões). Os jacobinos, movidos pelo igualitarismo e pela violência, eram inimigos da propriedade privada (o que não é bem por aí...), fonte da civilização e de todos os males. Daí cita-se Diderot, Voltaire e Jean Jacques Rousseau. Ao passo que os girondinos, reformistas, defendiam a liberdade.

Como oposto a essa ideia, claro, é apresentado o “conservador” Locke, de forma que aquilo contra o que a “nova direita americana”, que elegeu Trump, se revolta hoje (a historiografia Whig) passa a ser sacralizada aqui no Brasil. De um lado, a tradição britânica, em perfeita continuidade com a cristandade – segundo o Brasil Paralelo – pois o iluminismo escocês seria seu perfeito e mais lógico desdobramento; de outro, a revolução que quer destruir o ocidente, perfeita ruptura com o passado. Talvez por um lapso ou descuido, após falar que o rei Luís XVI ao convocar a assembleia dos Estados Gerais, viu-se impelido pelo radicalismo a findá-la, os sabichões do programa afirmam que os revolucionários se mudaram para o ginásio ao lado para fazer a jura revolucionária, e que lá estavam os girondinos (equivalentes aos Whigs) e os jacobinos juntos. Mas os girondinos não eram bonzinhos e em perfeita continuidade com a civilização? Não seriam eles meros reformistas como os Whigs ingleses? (Burke era um Whig, não custa lembrar. A ele voltaremos depois). Mistério.

Antes de desmascarar essa lorota, voltemos ao “iluminismo inglês”. É arqui-sabido que a nova direita coloca o iluminismo “moderado” como perfeitamente compatível com a catolicidade e com a tradição escolástica ortodoxa, veja Thomas Woods Jr; em seu livro “The Church and the Market” e em trechos de “Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental”. Falácia, nada mais que uma falácia. Conforme nos mostra Christopher Ferrara em “Liberty, the God that failed: Policing the sacred and constructing the myths of the Secular State. From Locke to Obama”, a “síntese greco-católica” era a base de um raciocínio hegemônico no ocidente, que mesmo com a transição do paganismo para o cristianismo não se perde, apenas funda uma nova estrutura teológica. O hilemorfismo, a teleologia, o realismo e a ideia de valores morais universais que ditam toda a política e a ação humana, continuam presentes. Nas palavras de Ferrara (2012, p.16):
A lógica grega do sistema platônico-aristotélico desenvolveu pela primeira vez na história ocidental, o realismo filosófico, política e ética baseada numa visão de homem como criatura que possui uma alma imortal que habita um universo ordenado, na qual as coisas existem como um objetivo fixado determinado pela sua natureza (tradução livre).
Todos estes elementos estavam presentes nas grandes obras dos filósofos pagãos e que, desvencilhadas do paganismo ganharam nova força sem, entretanto, perder sua essência no cristianismo. Isto é, de Aristóteles a Santo Tomás, de Platão a Santo Agostinho, estará ali a ideia de um universo ordenado, de forma e matéria, acidente e essência, da substância, da realidade como objetivamente cognoscível, bem como a ideia de um summum bonum.

Entretanto, como pontua Richard Weaver em “As idéias têm consequências”, com o nominalismo, a coisa começou a desandar. Porém, não podemos tomar as coisas como se fossem assim tão repentinas, em história nada é repentino. As ideias que enfraqueciam o realismo já estavam em correntes gnósticas anteriormente durante boa parte do medievo, só que sempre limitadas e combatidas pela Igreja. A inquisição, ao perseguir e punir hereges limitava a expansão e legitimidade de tais ideias. Contudo, com a perda de poder e abrandamento da inquisição, bem como o crescimento do humanismo (que como mostrará o professor Orlando Fedeli no “Antropoteísmo” era a gnose no ar, na arte e na cultura), isto levará a influência nominalista, antes combatida e agora tolerada, para dentro dos seminários, onde em Erfurt, um certo monge agostiniano aprenderia as ideias que dividiriam a cristandade, e as pregaria na porta da igreja do castelo de Wittermberg num fatídico 31 de Outubro de 1517.

É um fator importante de se frisar, em que pese o cisma de 1054 ter tido terríveis consequências, ele nunca abalou as bases filosóficas da “síntese greco-católica”; com o protestantismo seria diferente. O nominalismo é a filosofia de base da reforma, onde nenhuma essência é cognoscível e, se ela não existe, é mero flatus vocis. Palavra vazia. Daí não se tornará possível conhecer a natureza das coisas, e, não tendo uma natureza intrínseca, serão puros fenômenos. Deus mesmo, não terá, assim, uma essência cognoscível, logo, o justo não é aquilo conforme a natureza divina, mas sim um ato da vontade arbitrária. Não podendo também aceder-se ao conhecimento de Deus pela razão, visto que as coisas não têm essência, então, cai-se no fideísmo.

A reforma ao criar através das Igrejas nacionais e dos reis que se põem no lugar do Papa, uma intelligentsia secular, leiga, descolada da cristandade, criou o ambiente perfeito para a difusão destas idéias. O curioso é que o Brasil Paralelo em momento nenhum menciona ou aprofunda mais do que de mera passagem a Reforma Protestante como fonte de mudanças profundas na mentalidade europeia e, sobretudo, de uma nova civilização. Então, eis que no Brasil Paralelo episódio três, vem se falar de uma cultura secularizada, como criada pelo iluminismo e antes inexistente. Não, não senhor! O iluminismo, de fato, idealizou uma sociedade laica e a desejou, mas não o foi sem causa e sem precedentes. Sua causa eficiente e sua precedência advém do cisma de Lutero, aí sim, encontramos a secularização. Ora, onde mais se não nas guerras de religião e nas perseguições entre protestantes nascerá o desejo por um Estado laico? E onde nascerá isso se não do outro lado do Atlântico?

E Locke?

Conforme mostrará Ferrara (2011, p.60), Locke, um nominalista, revolucionará a filosofia de duas formas:
Primeiro, ele declara que o homem tem o direito de propriedade “sobre sua própria pessoa”, uma novidade que rompe com a visão tradicional do homem como criação divina, que tem apenas uma custódia sobre o seu corpo, o qual ele não pode dispor dele conforme bem entende. Segundo, ele propõe o direito de propriedade como absoluto.
Mas mais do que isso, Locke é o pai do materialismo cientificista moderno. Todos os clamores de Dennet, Dawkins e outros cientificistas jaziam lá em Locke, em germe. Ora, se as essências não existem ou não são cognoscíveis, não faz sentido falar em “substância” com relação aos entes. E se as coisas não tem substância, ou elas não são cognoscíveis, e portanto, não faz sentido falar em substância para o homem, caindo-se no ceticismo e no materialismo. Seja pela inexistência, seja pelo agnosticismo, essa hipótese levará a consequências práticas idênticas.

Se o homem não tem uma essência, não é possível derivar daí o fim do próprio homem, e assim Locke aboliu a teleologia. A ideia da “síntese greco-católica” de que o homem “habita um universo ordenado cujas coisas têm um fim conforme a sua natureza, a sua essência”, é, assim, destruída. Isso se ligará na epistemologia da “tabula rasa” ao conceito moderno de liberdade, como sendo a pura ação descolada da lei divina e natural conforme sua concepção clássica. Afinal, se o justo e o bom são obras de puro voluntarismo divino, não derivando, portanto, da natureza divina, nem o bom, de acordo com cada ente deriva da finalidade que Deus deu à sua criatura na sua própria natureza, então não existe o fim último de cada coisa, fim este que legitimará ou não o ato livre.

Contudo um ponto letal do raciocínio Lockeano encontra no fideísmo protestante a sua fundamentação. Ora, se Deus não é racionalmente compreensível, cognoscível, então, só podemos crer nele por um ato de fé pura e simples. Contudo, com uma cultura que não é censurada pela inquisição e por uma ortodoxia como era a medieval, agora, as opiniões se secularizam, e Locke dará a marretada definitiva no hilemorfismo ao afirmar no seu “Ensaio sobre o entendimento humano”, de que o homem não é união de forma e matéria, e que o “self”, o “Eu”, seria apenas uma propriedade da matéria, do cérebro (Dawkins e Denett na área?), ora, não seria o ceticismo a “genetrix” do naturalismo?

Ei-la aí, a raiz dos movimentos progressistas modernos, como o abortista, por exemplo. Afinal, se “homem” é apenas um nome que damos a uma coleção de atributos perceptíveis; se “homem” não é uma substância, uma unidade de corpo e alma divinamente criada com uma natureza e fins fixados por Deus; se o homem é apenas matéria com uma qualidade que é “pensar”, então, quem poderá dizer que um feto é um ser humano no útero da sua mãe com direitos? Mesmo para os clérigos anglicanos, isso foi considerado escandaloso àquela época. Então, se Locke em continuidade com uma tradição reformada, só que secularizada, escandalizava os calvinistas, quão mais revolucionário não será ele em relação à catolicidade? Do fideísmo ao ceticismo de Hume e Locke há apenas um passo de distância. Todas essas ideias já estavam presentes no “cogito cartesiano”, é verdade, e como o próprio Olavo de Carvalho nos apresenta em “Visões de Descartes” (autor inquestionável para a turma do Brasil Paralelo), as ideias protestantes tinham muita influência sobre René Descartes, uma das razões dos pesadelos com o gênio mau, inclusive. Contudo, para ser mais ortodoxo quanto às fontes, cito o grande tomista brasileiro Perillo Gomes:
Tratando das suas origens, Pio IX é categórico no Syllabus, na infomação que nos dá: essas liberdades provem de teses fundamentais da revolução luterana e propagaram-se pelo mundo graças aos pseudo-filósofos da enciclopédia no século XVIII e triunfaram com a revolução francesa. Se desejar investigar sua origem mais remota chegar-se-á ao ponto inicial de todas as negações e de todas as revoltas: o grito de soberba de um anjo rebelado.
O iluminismo “moderado”, como visto em Perillo, é filho do protestantismo, e como colocará Ferrara, não passa de uma revolução tanto quanto o radical francês. O primeiro, radical nas ideias, pragmático na ação; pois se não há substâncias, não podemos dizer com precisão como as coisas são, melhor que elas mudem sozinhas na história, pois sem essências tudo é acidente e tudo muda. O segundo, radical nas ideias e nas ações, queria por uma exacerbação da racionalidade e pelo essencialismo, derrubar tudo e reerguer do zero.

É natural, portanto, que o processo de secularização leve aos conceitos básicos da soberania do indivíduo, em germe em Lutero e seu livre exame, que é a raiz do pensamento liberal, dado em Locke, e também presente em Hobbes, que embora absolutista pode ser chamado de ilustrado. Aliás, cito novamente o grande Perillo: “Os princípios liberais são: a soberania absoluta do indivíduo, a soberania absoluta da sociedade, a soberania nacional, a liberdade absoluta de imprensa e a liberdade absoluta de associação”, e eu complementaria, a completa liberdade de mercado, a liberdade absoluta de ideologias, conteúdo do pluralismo político, etc. Logo temos, política sem moral e sem virtude, economia sem moral e virtude, jornalismo sem moral e virtude, etc.

Ou seja, quando Morgerstern, a olavette processada por Caetano diz: “Esquerda é isso”, referindo-se aos jacobinos, temos que realmente nos perguntar se isso não se aplica ao girondinos também, afinal segundo o próprio Olavo de Carvalho, guru do processado, em seu artigo zombando do bobalhão liberal Rodrigo Constantino, diz: “Os girondinos, dos quais os liberais modernos se apresentam como herdeiros ideológicos, foram os primeiros a pregar a matança como panacéia revolucionária para os males da França[1].” Na prática, como eu já venho dizendo, todo conservador-liberal é um revolucionário superado pelo processo revolucionário.

Bonifácio, Revolução Americana Conservadora (?)

A expressão founding father utilizada nos Estados Unidos, é usada nesse episódio duas vezes, uma para se referir a José Bonifácio de Andrada e Silva e na outra a Visconde de Cairu. Ora, isso é ou não é já a americanização do debate historiográfico acerca das origens do Brasil? Categorias americanas bem restritas, passam a ser as medidas de comparação com a história brasileira! Como já citado, Christopher Ferrara irá mostrar, demolindo completamente a falácia Kirkeana de que a revolução americana fora uma revolução conservadora, o caráter claramente subversivo da revolução, marcada por manipulação da opinião pública através da imprensa da época (herdado da reforma protestante que se valeu do mesmo artifício, tal elemento foi utilizado para propagar factoides sobre a "violência" dos ingleses e sobre o "papismo" do rei George); não custa lembrar que “papista” como acusação e adjetivo pejorativo apareceu pela primeira vez nos escritos de Lutero como “Do Cativeiro babilônico da Igreja”, e os revolucionários americanos usaram também de denúncias hipócritas sobre a carga tributária supostamente opressiva da Coroa Britânica. A própria ideia de que a justiça de um imposto depende da representação, aparece pela primeira vez em Locke, mas não tem qualquer fundamento no pensamento filosófico tradicional. Soberania popular e voluntarismo?

Se a revolução americana é tão conservadora, por que ela era, antes de tudo, anti-Católica? Por que John Adams temia como ao demônio os direitos e a influência da Igreja em Quebec? Ao identificar o rei George III como um “papista”, eles queriam dizer o quê, se não a união entre o poder temporal e o poder eclesiástico previsto na doutrina dos dois gládios? O Brasil Paralelo argumenta que não há ligações entre a revolução americana e a francesa nos fundamentos e na prática, resta saber como separar James Maddison e Thomas Jefferson de suas influências que vem de Voltaire e dos enciclopedistas? Como negar que o braço direito de George Washington, Thomas Paine achou justa a remoção e assassinato de Luís XVI, mesmo sendo um “rei moderado”, pelo simples fato de ser um rei? Para Paine, a monarquia é inerentemente injusta e deve ser eliminada onde quer que ela exista. Como diferenciar essa afirmativa da mesma dos Jacobinos, que segundo William Doyle (1991, p.15) em “O Antigo Regime”, de que o objetivo dos revolucionários envolvia derrubar todas as monarquias do continente?
O "feudalismo" deveria ser destruído; e as terras da Igreja confiscadas. Em outras palavras, o Antigo Regime passava a ser encarado como um fenômeno não simplesmente francês. Podia ser encontrado onde quer que houvesse reis, nobres, privilégios, feudalismo e propriedades eclesiásticas. E isto representava a maior parte da Europa.
O próprio Rothbard, libertário, chama a atenção que a revolução americana provocou mais refugiados em proporção dos habitantes do que o Terror jacobino. Como pode isso não ter ligações com a doutrina francesa? Por que, como Chesterton notou, um dos grandes defensores da Revolução Americana, Edmund Burke, adota o evolucionismo e o ceticismo de Hume como defesa da Tradição e não o direito natural clássico, já que ele estaria em plena conformidade com a cristandade? Por que não se usou o direito natural clássico para coibir os abusos da doutrina de Robespierre baseada numa distorção do jusnaturalismo? Será porque Hume, outro nominalista, o guilhotinou?

O próprio George Washington havia dito, pouco antes da revolução que o rei George III não era um tirano, mais do que isso, que era “o melhor dos reis”. Aliás, a historiografia contemporânea mesmo nega a hipótese de tirania; se a Revolução Francesa e Americana foram alguma coisa, elas foram mera agitação ideológica com drásticas consequências, e o seu fruto foi semente da república imperial, liberal, laica da moral civil a qual Olavo, mentor dessa turma, denuncia no seu “Jardim das Aflições”, livro que hoje ele nega a validade das conclusões, mas que é seu magnum opus, e ao qual todos os americanistas louvam, paradoxalmente. A constituição americana, cujo Deus é o GADU da maçonaria, era razão de escândalo mesmo para calvinistas, que diziam ser ela: "the godless constitution". Foi a National Reform Association, inclusive, que tentou em vão emendar a Constituição com uma menção explícita a Deus e a Jesus Cristo.

Acresça-se a isso, os sacrifícios rituais de tendência gnóstica nos “liberty poles” e “liberty trees” ocorridos no período da revolução americana, onde inimigos da revolução eram forçados a jurar lealdade a mesma, sob a pena de serem mortos ali em sacrifício a deusa Libertas. É essa sociedade gnóstica e violenta que é modelo? É essa sociedade que privatiza a fé que é o parâmetro para um país que nasceu pela fé Católica, pelo altar e pelo trono? Ora, é novamente Perillo quem vai nos explicar o que é esse modelo liberal-americano em face da tradição católica, vejamos com ele se ela é conservadora:
O liberalismo radical (NdT: jacobinismo) é ostensivamente ateu, anticlerical, demagógico e revolucionário. Como expressão política proclama a supremacia do estado sobre o indivíduo e as corporações de qualquer natureza. O liberalismo moderado (NdT: ou conservador) tenta uma fórmula de conciliação entre os princípios do liberalismo radical e a coexistência do sobrenatural, determinando na vida do homem um dualismo fundamental: de um lado as atividades da fé e de outro as cognoscitivas, cívicas, utilitárias, etc. A razão, portanto, nada tem a ver com a revelação; os dois planos da vida, o natural e o sobrenatural são independentes entre si, como dois departamentos estanques. (NdT = Nota do Transcritor)
Prossegue Perillo:
Sua fórmula política é a igualdade entre os poderes espirituais e temporais, essa pretensa igualdade em si mesmo já é uma heresia. Não é possível nivelar a vida religiosa, que interessa a vida futura do homem - sua vida verdadeira - àquela a que estão confiados apenas os seus interesses imediatos, tangíveis, transitórios. Além disso, essa declaração de igualdade é puramente teórica, não corresponde à realidade, porque não podendo existir dois poderes autônomos, absolutos, interessando ao mesmo indivíduo, daí resulta que na prática o Estado, sob alegação de que lhe cabe a função de mantenedor da ordem, impõe a Igreja as soluções que bem lhe parecem. Daí os conflitos que se verificam entre a Igreja e as liberdades modernas.
Como podemos ver, a historiografia Whig do Brasil Paralelo simplesmente segue a lógica Lockeana, e demole a Cidade de Deus da qual falava Santo Agostinho. Como podem homens que querem recuperar a história do Brasil, um país mercantilista, miscigenado e católico, o fazerem sobre bases liberais, segregacionistas e protestantes? Não podem, não tem como, e o resultado é isto... Propaganda. O Brasil Paralelo não passa de pura empulhação ideológica no que se refere a fazer um recorte de fundo para narrar a história do Brasil. Como eu disse de começo em artigo prévio, o programa tem o mérito de fazer uma história patriota, o que para um público leigo é aceitável. E eu acredito na História como magistral vitae, assim como Cícero. Mas não é necessário distorcer a história, inventá-la, mentir e omitir.
Síntese escolástico-liberal e católico-maçônica.

Qualquer conciliação entre a síntese católico-maçônica de Bonifácio e escolástico-iluminista como a de Cairu (se é que tal junção existe), mencionada aos 37:47 do episódio, não passa de heresia, as velhas heresias nominalistas ressuscitadas pela equipe do Brasil Paralelo. As mesmas heresias que o Papa São Pio X irá condenar sob a alcunha de modernismo; afinal, o que é o americanismo e o catolicismo liberal se não modernismo? Os católicos que não se enganem, nada há de católico e “conservador” no Brasil Paralelo. Só é possível adotar um escolasticismo liberal caindo em heresia, então católico, escolha: a cidade de Deus ou a cidade dos homens?

Aos homens do Brasil Paralelo, pergunto-vos: (pois sei que muitos ali se dizem católicos) quem sois vós? católicos ou hereges? a Igreja ou o liberalismo? ESCOLHAM!


#Arthur Rizzi
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